Reserva de cotas nas universidades públicas: por quê?

“Mais um absurdo educacional do presente governo, que se exime de resolver o verdadeiro pepino”

A presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que impõe cotas sociais e raciais na seleção de alunos para as universidades federais, com reserva de 50% das vagas. A cota racial será diferente em cada universidade ou instituto da rede federal e de acordo com a proporção dessas populações segundo o censo do IBGE 2010 naquele estado.

As demais vagas reservadas serão distribuídas entre os que cursaram o ensino médio em escola pública, sendo que no mínimo metade da cota (ou 25%) deverá ser destinada a estudantes que, além de ter estudado em escola pública, sejam oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário mínimo per capita.

Assim, por mais que queiram, meus filhos provavelmente não serão médicos. Eles têm avós, tios avós e primos mulatos e negros, mas tiveram o azar de “puxar os genes errados”. Tiveram o azar de ter um pai que veio de uma família de classe C que muito se sacrificou para oferecer as melhores condições de estudo aos filhos, que se arrebentaram de estudar, e conseguiu colocar sua família fora da “faixa social” de 1,5 salário mensal per capita.

Ora, como a concorrência das vagas para não cotistas deve praticamente dobrar, ficará muitíssimo difícil (a não cotista) ser aprovado, numa universidade federal, em um curso concorrido como Medicina. Restaria, então, a opção de uma instituição privada, com mensalidade em torno de R$ 3 mil. Observe, ainda, que eles não poderão usufruir do Fies, porque a família tem renda per capita mensal maior que 1,5 mínimo. Meus filhos serão discriminados pelas árduas conquistas de sua família, apesar do escandaloso imposto de renda que pago ao governo e que sustenta o populismo reinante. Assistirei impotente.

A minha realidade familiar será uma dentre muitas análogas, e evidencia mais um absurdo educacional do presente governo, que se exime de resolver o verdadeiro pepino (o estado desastroso do ensino básico público) para jogar mais centenas de milhares de estudantes com preparo sofrível nas universidades federais.

No que concerne às universidades federais, tal lei subverterá o que temos de mais sagrado, o mérito acadêmico, e enterrará de vez nossa tão propalada autonomia. Por outro lado, o ensino superior privado agradecerá imensamente. Com as cotas, ele perderá alunos fracos, sustentados pelo Fies, e ganhará o excedente dos filhos das classes médias, clientes pagantes e com melhor escolarização. Pavimenta-se o caminho para que aconteça o ocorrido com o ensino básico no passado: a derrocada.

Por que ninguém se horroriza?

Antonio Caminha M. Neto

formarce@gmail.com
Doutor em Matemática e professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Ceará Pesquisador do CNPq, Nível 2

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