Greve na UFC: “Meninos”, eu estava lá!

“Estamos diante de uma situação política de extrema gravidade”

Tudo depende do lugar em que a pessoa se encontra, das intenções e motivações que a animam a se pronunciar. Afinal, onde tenha sido cravada a âncora da significação e interpretação das coisas pela subjetividade humana, haverá sempre diferentes modos de ver e narrar as coisas. Em especial, se esse olhar está fechado em paredes, portões e muros, tem por único recurso uma câmara de vigilância privada, onde sujeito e objeto de observação se encontram separados, no sentido físico-corporal e político-ideológico. Melhor seria, então, dizer: Meninos eu ouvi, meninos eu acompanhei tudo pelo sistema interno de televisão!

Quem se fecha em quatro paredes, tranca o portão a chaves, não atende à campainha, se negando a receber quem chega da rua, diz, muito claramente, que não aceita conversar e toma os que chegam, antes de tudo, como tremenda ameaça.

A casa onde essa pessoa se encontra é a sede de um sindicato, quem a mantém trancada é um membro da sua diretoria, o grupo que pede para entrar é de professores universitários. Este tem como único intuito entregar uma petição com centenas de assinaturas de associados solicitando à sua entidade de classe o encaminhamento de uma assembleia geral, numa circunstância de greve tensa e demorada. Estamos diante de uma situação política de extrema gravidade. Pois eu, não apenas vi tudo isso, como estava lá, após décadas de ensino e pesquisa, com carreira docente diligentemente conduzida e dedicação exclusiva à UFC.

Por acreditar que a liberdade é o bem mais precioso e o autoritarismo deve ser veementemente repudiado, participei da passeata que se dirigiu à sede da Adufc, no último dia 23, ao lado de dezenas de colegas e funcionários, sob a regência da vibração juvenil dos estudantes e convicção do nosso movimento docente quanto ao direito de livre manifestação, cantando o seguinte refrão: “Unificou, a greve agora é de estudante, servidor e professor!”

Permanecemos juntos, defronte à sede do Sindicato, por 2h30min, à espera que sua diretoria concordasse em nos receber em comissão, pacífica e pacientemente, até que conseguimos encontrar um canal de justa mediação. Quando isso se deu, o nosso documento foi entregue e protocolado, após o que nos despedimos muito contentes com o fim daquele impasse.

Demos por encerrada aquela concentração pública. O que não sabíamos é que tão pacífica manifestação viesse a ser usada para justificar outras ações e abrigar sentimentos alheios à nossa vontade.

Maria Juraci Maia Cavalcante

juraci.maia@yahoo.com.br

Professora titular da Faced-UFC

O Povo