A receita mineira para o bom resultado no Ideb

A receita mineira para o bom resultado no Ideb
João Bittar/MEC

Mariana Mandelli

Apresentar e explicar os resultados das avaliações regionais e nacionais a professores, servidores, famílias e estudantes. É esta uma das iniciativas que faz com que a rede estadual de Minas Gerais tenha Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 6,0 para os anos iniciais do Ensino Fundamental, média que representa o patamar educacional dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e meta para o Brasil atingir até 2022.

Além do Ideb 6,0 para o primeiro ciclo do Fundamental na rede estadual, Minas também é o estado que tem a maior porcentagem de municípios com índice igual ou superior a 6 para a etapa de ensino: 36,7% (284 cidades).

Os índices para os outros níveis de ensino avaliados pelo Ministério da Educação (MEC) também estão acima das médias do País: 4,4 para os anos finais do Fundamental, segundo maior do País (o do Brasil foi de 4,1), e 3,9 para o Ensino Médio (o Brasil marcou 3,7).

“Educação é política de estado, de médio e longo prazo. Não adianta varinha de condão nem achar que é da noite para o dia. É muito importante que se crie sustentabilidade, continuidade das políticas. O que fez a diferença em Minas é que já tínhamos uma tradição educacional importante, inclusive em avaliação. Mas ela não era sistêmica e não estava associada a uma intervenção pedagógica consequente. Este foi o salto, e ele foi construído a partir do momento que nos apropriamos do que ocorreu antes”, afirma a secretária estadual de Educação de Minas Gerais, Ana Lúcia Almeida Gazzola. “A boa avaliação é a que promove mudança. Não pode ser feita para punir. Tem que gerar agenda positiva e tem que mobilizar e motivar as pessoas por pertencimento e coesão em torno de um objetivo comum, que é a qualidade da Educação.”

Abaixo, leia trechos da entrevista que ela concedeu ao Todos Pela Educação.

Como foi a recepção dos resultados do Ideb 2011?
Ficamos mais alegres porque vimos que, no Ensino Fundamental, Minas como um todo e a nossa rede ficaram em primeiro lugar na proficiência, o que mostra que a qualidade está sendo inclusiva. Ficamos felizes com o índice, mas é necessário olhar a proficiência média. Tivemos uma greve no ano passado e houve boicote em alguns segmentos do 3º ano do Ensino Médio – muitos meninos responderam mal à nossa avaliação estadual e ao Saeb. Mas ainda assim atingimos a meta de 3,7 para a rede estadual.

Já o índice 6 para os anos iniciais é uma maravilha. Claro que o movimento deve ser crescente, mas acho que podemos considerar que uma etapa foi cumprida e podemos ficar satisfeitos.

Observando o melhor resultado da rede estadual de Minas – o Ideb 6,0 no primeiro ciclo do Ensino Fundamental –, percebemos que ele é maior que o da rede pública como um todo, que é de 5,8.
Sim, temos 853 redes municipais, mas sem dúvida alguma quem puxou a média para cima foi a estadual.

Na opinião da senhora, isso quebra o mito de que a escola municipal é melhor do que a estadual?
Isso é realmente falado, mas acho que mais importante é quebrar o mito de que a escola pública não pode melhorar. A grande coisa que o Ideb mostrou é que ela pode melhorar sim. Precisamos de inspiração, de vontade política e de trabalho.

O que acontece em Minas é um processo que se iniciou de forma sistêmica a partir de 2003, com um conjunto de ações como o Programa de Intervenção Pedagógica (PIP) e o Sistema Mineiro de Avaliação da Educação Pública (Simave), que tem duas provas anuais: o Programa de Avaliação da Rede Pública de Educação Básica (Proeb) e o Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa).

Esse trabalho foi crescente, de patamar em patamar, com o estabelecimento de metas. A importância dos exames anuais é grande, porque eles não ocorrem somente na rede estadual. Também financiamos a aplicação nas redes municipais. Todas as escolas públicas participam do Simave – o prefeito só paga a logística de aplicação local.

Na prática, quais são os efeitos desses programas?
Muitas cidades começaram a usar a estratégia do PIP. O programa consiste em equipes multidisciplinares que percorrem as escolas. Na prática, a equipe do PIP chega à escola e organiza uma reunião com a direção para discutir o projeto pedagógico e os problemas. É estabelecida uma estratégia e os professores do PIP vão às salas para acompanhar as aulas. Eles discutem com os professores e sugerem metodologias e bibliografia, além de identificar alunos com problemas. Eles não dão aula de reforço, mas identificam a necessidade de implantar na escola o programa de aprofundamento de estudos.

Tudo isso é feito por uma equipe que é capacitada o ano todo, em diversos workshops. Mensalmente, os professores das escolas que receberam as equipes apresentam para o PIP o relatório do que fizeram.

O PIP I, para os anos iniciais do Fundamental, existe desde 2007. Já o PIP II, que foi implantado neste ano, é para os anos finais. São mais de 600 pessoas envolvidas e a secretaria está investindo R$28 bilhões no programa neste ano.

Uma iniciativa muito importante desse modelo é o Dia D, que ocorre uma vez por ano. Na data escolhida – neste ano foi em julho –, todas as escolas de Ensino Fundamental do sistema param e debatem os resultados do Proalfa e do Proeb – e também do Ideb, quando já temos os resultados. Não há aulas e todos os professores, supervisores e inspetores, junto à direção, se debruçam sobre seus resultados, discutem e estabelecem estratégias de consolidação ou de superação, conforme o caso. Três dias depois, os pais vêm à escola e a direção compartilha os resultados e a análise feita. Os pais tomam conhecimento, podem opinar e assumem uma espécie de corresponsabilidade pelos resultados.

Por essa razão, dizemos que o Simave é transitivo: não é avaliação por avaliação. Ele indica a necessidade de intervenção pedagógica. O sistema é monitorado o tempo todo e as respostas são levadas sempre aos professores, para eles poderem ver no que avançaram e no que não avançaram.

Qual a estratégia para o Ensino Médio do Estado evoluir?
No ano passado, a secretaria concebeu e implantou o programa Reinventando o Ensino Médio, que se iniciou em onze escolas piloto e agora vai se estender a mais 120.

Estamos mexendo na estrutura curricular – não só chegando a 3 mil horas-aula, mas usando estágios, atividades extraclasse e criando tutorias nas escolas para acompanhar o percurso dos alunos. A ideia é apresentar os conteúdos não de forma ortodoxamente disciplinar, mas por meio de temas transversais – para isso é preciso o tutor: para ajudar o aluno a se organizar. A proposta é mais flexível.

Cada escola de Ensino Médio – são mais de 2.220 na nossa rede – escolherá três áreas de empregabilidade e trabalhará esses temas em grupos focais de professores e alunos, para que estes sejam pré-profissionalizados. São 16 áreas propostas. As onze primeiras escolas escolheram as mesmas: comunicação aplicada, tecnologia da informação e turismo. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi contratada como consultora e criou os currículos, além de treinar os professores.

Assim, se o aluno não quiser seguir o caminho acadêmico, ele sai da escola pré-profissionalizado, com noções de empreendedorismo e sobre o mercado de trabalho.

Existe alguma iniciativa em relação ao ensino noturno?
O Estado é responsável por 86,4% da oferta de ensino Médio. O privado tem 12% e o federal, 1%. E existe um resíduo em algumas prefeituras. Ou seja, a esmagadora maioria é nossa. Havia um projeto do governo do Estado de atingir 65% da oferta no período diurno até o fim do atual mandato. Neste ano, atingimos 76,4% e mudamos a meta para 85%. Acho que manter 15% é um bom número porque precisa ter uma parcela de matrículas à noite para os alunos que trabalham e também para alunos que estão com distorção idade-série.

Todos Pela Educação