Grandes temas de um grande desafio

Painel RBS, ontem, debateu as principais questões do ensino brasileiro, marcando o início da campanha “A Educação Precisa de Respostas”

Fonte: Zero Hora (RS)

Um debate realizado ontem, em Porto Alegre, deu início a uma busca conjunta por soluções para problemas crônicos do Ensino brasileiro. O evento deflagrou a nova campanha institucional do Grupo RBS, que enfoca a necessidade de melhorar a aprendizagem no país sob o slogan A Educação Precisa de Respostas. As primeiras delas começaram a ser discutidas no encontro de duas horas que contou com a participação do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, de outras autoridades e de especialistas.

O Painel RBS, transmitido ao vivo por TV, rádio e internet, teve a participação de jornalistas e de representantes da sociedade civil que fizeram perguntas ao ministro, aos secretários estaduais do Rio Grande do Sul, Jose Clovis Azevedo, e de Santa Catarina, Eduardo Deschamps, à secretária municipal do Rio de Janeiro, Claudia Costin, e ao conselheiro do movimento Todos Pela Educação Mozart Neves Ramos.

Ao longo dos quatro blocos do programa, que contou com a presença na plateia do governador gaúcho, Tarso Genro, foram destacados alguns dos principais entraves ao avanço da qualidade do Ensino no país e possíveis caminhos para apressar a elevação dos indicadores de qualidade. As discussões, a partir de agora, serão ampliadas e aprofundadas em todos os veículos de comunicação da RBS a fim de mobilizar as sociedades gaúcha e catarinense e intensificar a procura de soluções para as mazelas do Ensino nacional.

As reportagens terão como eixo seis perguntas sobre o tema, incluindo as razões para o mau desempenho em avaliações internacionais, a distorção entre idade e série e o desinteresse dos jovens pela profissão de Professor.

– A Educação, quando se pensa no futuro, é um tema central do interesse coletivo da nossa sociedade. A RBS definiu que, a partir desta iniciativa, vai focar prioritariamente as suas ações institucionais no tema da Educação. Começamos com esta bandeira, buscando respostas, com o firme propósito de criar uma mobilização das sociedades gaúcha e catarinense – sustentou o presidente do Conselho de Administração do Grupo RBS, Nelson Sirotsky.

Diante dos questionamentos dos convidados, que apresentaram suas dúvidas ao vivo de diversas cidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, os participantes do painel se debruçaram sobre alguns dos principais temas da Educação brasileira, como o baixo aproveitamento Escolar, a necessidade de valorizar e qualificar os Professores, o desafio de melhorar o processo de Alfabetização e como tornar o Ensino médio mais atrativo. O desempenho preocupante demonstrado pelo Rio Grande do Sul no mais recente Índice de Desenvolvimento da Educação básica (Ideb) também foi debatido. No Ensino médio, a média caiu de 3,9 para 3,7, abaixo da meta de 4.

– O que joga o Ideb gaúcho para baixo é a reprovação. Ela é uma derrota da Escola, mas a aprovação automática não é a solução. Temos de ter um projeto de recuperação desses Alunos – avaliou Mercadante.

A situação do professor
Na avaliação dos especialistas, a volta por cima da Educação precisa ter como base uma melhor formação e a valorização dos Professores.

– A base de toda a aprendizagem começa por um bom Professor. O Brasil tem um enorme dever de casa. A gente precisa responder a uma pergunta: por que a carreira do magistério não é atrativa no Brasil? – questionou Mozart Neves Ramos.

O próprio especialista ofereceu uma hipótese: enquanto um Professor ganha, em média, R$ 1,8 mil, outro profissional com titulação equivalente recebe R$ 2,8 mil. Países que estão no topo da Educação mundial, como Coreia do Sul e Finlândia, pagam bem seus Professores, o que lhes permite atrair mais interessados e selecionar os melhores. Outros desafios a serem superados, segundo Ramos, é a criação de planos de carreira baseados em formação continuada e desempenho, uma formação inicial sólida e condições adequadas de trabalho.

– Nada substitui o brilho nos olhos de um bom Professor – resume.

Para Claudia Costin, é preciso superar o ranço de que Professores não podem ser avaliados externamente:
– Por que não se pode reconhecer o Professor? Mais importante do que premiar o Professor é premiar toda a equipe Escolar. A Educação é um processo coletivo.

Mercadante lembrou que há 170 mil Educadores no país sem formação adequada para lecionar no Ensino médio. Sustentou que o governo oferece bolsas de estudo para aprimorar a formação prática do magistério, e promovendo a formação por meio da Universidade Aberta do Brasil.

Educação em tempo integral
Aumentar a presença diária dos estudantes na Escola foi uma das principais estratégias apontadas por algumas das autoridades presentes ao Painel RBS para melhorar os indicadores da Educação brasileira. O ministro Aloizio Mercadante se mostrou um dos maiores entusiastas da proposta.

– Todos os países desenvolvidos que têm Escola de excelência têm Escola de tempo integral. O Brasil precisa caminhar nessa direção. É um processo, mas estamos avançando – avaliou o ministro da Educação.

Mercadante ressaltou que pouco mais de 30 mil Escolas em todo o Brasil aderiram neste ano ao programa federal Mais Educação, que prevê a ampliação da jornada Escolar de quatro para sete horas diárias. Nessas três horas excedentes, o colégio pode oferecer reforço de disciplinas como matemática ou português, atividades envolvendo teatro ou música, responsabilidade ambiental, de conhecimento das leis de trânsito ou cultura regional, por exemplo, somando 10 campos de conhecimento que cada estabelecimento pode escolher.

– Eu vi uma jovem, outro dia, que tinha abandonado a Escola, voltou no Mais Educação, entrou no judô e virou campeã brasileira – comentou o ministro.

Claudia Costin citou o exemplo carioca e também destacou a importância de oferecer mais tempo de estudo nos colégios públicos a fim de turbinar o desempenho do alunado:

– Temos investido nisso, porque os 15 primeiros no Pisa (ranking que compara desempenho de Alunos em diferentes países) têm sete horas de aula. Precisamos colocar o Professor para trabalhar em uma única Escola, sem perder tempo para deslocamentos e criando vínculos afetivos com Alunos daquela Escola.

Reformulação do Ensino Médio
A situação do Ensino médio hoje no país, com excessivas 13 disciplinas básicas, 19 optativas e um currículo antigo e pouco atrativo para os jovens, foi considerada pelos especialistas e autoridades uma das grandes deficiências da Educação básica. O ministro Aloizio Mercadante sustenta que esse currículo deve ser redesenhado, com o agrupamento das disciplinas em quatro áreas principais: matemática, português e redação, ciências da natureza e ciências humanas.

– Os Alunos têm dificuldade de organizar esse volume de informações e ter um bom desempenho, principalmente com as deficiências anteriores. Estamos buscando uma integração dessas disciplinas em quatro áreas, que são as áreas do Enem – observa o ministro.

O secretário catarinense, Eduardo Deschamps, porém, demonstrou preocupação com a vinculação entre o nível Médio e o Enem:

– Com a definição do Enem como um indicador de qualidade, me preocupa que a gente foque demais a formação do Ensino médio na preparação para a universidade, sabendo que apenas 30% vão para a universidade imediatamente. Um dos pontos é: de que maneira diversificar o Ensino médio, preparando o Aluno para a universidade e, ao mesmo tempo, para o mercado de trabalho? A reformulação curricular passa por isso.

O secretário gaúcho, Jose Clovis Azevedo, lembrou que o Estado iniciou no ano passado uma discussão sobre a reformulação do Ensino médio, que começou a ser colocada em prática este ano:

– Estamos implantando uma reforma que dialoga com questões como a interdisciplinaridade, do Ensino por áreas do conhecimento, com 200 horas a mais por ano e estímulo aos Alunos para fazerem pesquisa.

Nós do Ensino Fundamental
O Ensino brasileiro enfrenta dois gargalos principais na Educação básica. Um deles se encontra no começo do Ensino fundamental, quando as crianças devem ser alfabetizadas. O segundo está no meio do caminho, no momento em que o currículo se diversifica e o número de Professores é multiplicado.

– Nossa prioridade é a Alfabetização na idade certa, porque, na Região Sul, 6%, 7% das crianças não se alfabetizam até os oito anos. Mas temos Estados no Brasil em que 35% das crianças não aprendem a ler e a escrever até os oito anos. Se não aprendeu, toda a vida Escolar está comprometida – afirmou o ministro Aloizio Mercadante.

Em setembro, o governo federal promete lançar um pacto nacional pela Alfabetização na idade certa, em que uma ajuda de custo será oferecida para 315 mil Professores alfabetizadores, cujo trabalho será monitorado.

– O material está sendo elaborado e vai ser coordenado pelas melhores universidades do Brasil. Vamos ter gestores e monitores para acompanhar todo esse processo, e vamos fazer uma avaliação externa, para fins pedagógicos, para verificar se aos sete anos e aos oito anos de fato estão aprendendo a ler – promete Mercadante.

Mesmo após a superação desse obstáculo inicial, os estudantes deparam com outra provação ao longo do Ensino fundamental: quando chegam ao 6º ano e passam a ter várias disciplinas e diversos Professores, em vez de um só. Nesse período, aumenta a reprovação de maneira geral no país. O governo também pretende estimular uma transição mais suave para os anos finais do Fundamental, reformulando currículo e oferecendo melhor formação aos Educadores.

Editorial: As primeiras respostas
Foi promissora a largada da campanha proposta pelo Grupo RBS para qualificar a Educação no país, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Já no seu lançamento, a iniciativa denominada A Educação Precisa de Respostas alcançou os primeiros resultados positivos: as exposições do ministro Aloizio Mercadante e dos secretários estaduais Jose Clovis de Azevedo e Eduardo Deschamps, as sugestões dos especialistas Mozart Neves Ramos e Cláudia Costin, e a adesão significativa do público que acompanhou a programação multimídia do Painel RBS, no qual os convidados do programa interagiram com representantes de diversas cidades dos dois Estados.

“Quem estuda vai escolher o que fazer na vida. Quem não estuda vai ser escolhido ou não” – advertiu o ministro da Educação ao apresentar as prioridades de sua pasta para resgatar a qualidade do Ensino. Ele elege como principal objetivo a Alfabetização na idade certa, lembrando que a criança que não aprende a ler e escrever, nem a dominar o básico de matemática, fatalmente ficará pelo caminho. E há Estados brasileiros, lembrou, em que 35% dos estudantes chegam aos oito anos sem aprender a ler. Por isso, o MEC está coordenando um pacto nacional pela Alfabetização, que conta com a adesão de todos os secretários estaduais de Educação e de cerca de 4,5 mil prefeitos. O segundo ponto que o ministro considera importante abordar é o choque da passagem da quinta para a sexta série do Ensino fundamental, quando os Alunos saem do Professor único para várias disciplinas. Aqui, o MEC trabalha com propostas que permitam uma inserção mais suave no universo multidisciplinar. Também o Ensino médio, de péssimos resultados no último Ideb, está recebendo total atenção, devendo passar por uma reformulação de currículo que transforme mais de uma dezena de disciplinas em quatro áreas. Ao mesmo tempo, o governo preocupa-se com a formação e a capacitação de Professores.

Pois foi exatamente a valorização do Professor, o investimento em quem ensina, o primeiro tema destacado pelo conselheiro do movimento Todos Pela Educação, Mozart Neves Ramos, que apontou quatro aspectos essenciais para a qualificação dos Docentes: “Salário atraente, plano de carreira pautado na formação continuada e no compromisso com a aprendizagem, formação inicial sólida e insumos para o bom desempenho em sala de aula”. A secretária de Educação do Rio de Janeiro, Cláudia Costin, defendeu a criação de um currículo nacional e relatou a experiência do seu Estado com Escolas de turno integral.

Assim, com um debate em torno de ideias pragmáticas, construtivas, voltadas para o bem comum, deu-se a partida de uma campanha que não é só do Grupo RBS, mas também e principalmente das comunidades gaúcha e catarinense. Todos podem – e devem – contribuir para que os jovens, como disse o ministro, possam escolher o que fazer na vida.