Os municípios cearenses na Prova Brasil

“O maior mal do Nordeste é o desleixo com a alfabetização”

Recém-divulgada, a Prova Brasil mostra que o País continua mal na foto da educação. Os resultados do Nordeste não fogem a essa realidade. Na Região, nas séries iniciais da rede pública, as notas de Língua Portuguesa estão 20 pontos abaixo da média nacional, e mais do que isso em Matemática. Já nas séries finais, as notas são comparáveis às respectivas e baixas médias nacionais.

A imprensa noticiou o grande aumento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no Ceará como um todo, mas não salientou a mudança bastante modesta nas notas da prova. O Ideb reflete mais os ganhos decorrentes das taxas de aprovação do que do desempenho dos alunos. Mas o Ministério da Educação (MEC) só disponibilizou os dados individuais dos municípios, e não do conjunto deles.

Em Fortaleza, a rede municipal situa-se um pouco abaixo, mas próxima à média nacional, com resultados de 181 e 196 pontos em Português e Matemática nas séries iniciais e de 239 pontos nas duas disciplinas nas séries finais. Fortaleza encontra-se abaixo de Teresina (PI) e João Pessoa (PB), nas séries iniciais.

O destaque vem do Interior: Mucambo, Sobral, Jijoca de Jericoacoara, Itarema e Independência lograram notas superiores à média nacional, inclusive, na maioria deles, também no 9º ano.

O caso de Sobral chama a atenção: é o único município do Brasil em que praticamente todas as suas 41 escolas possuem notas superiores à média nacional, próximas de 220 pontos ou mais em Língua Portuguesa. A rede escolar funciona, pois existe padrão de ensino.

O maior mal do Nordeste é o desleixo com a alfabetização. Para a região melhorar, é preciso alfabetizar bem as crianças no 1º ano. E o sucesso em fazer isso deve ser o instrumento para servir de guia para os passos seguintes. O Ceará já deu um grande passo nessa direção, mas ainda precisa dar o seguinte: assegurar alfabetização no 1º ano.

O segundo problema é a cultura da repetência. Enquanto não for erradicada, não haverá avanço. Se até hoje grande parte da melhoria do Ideb se deu por redução da repetência, daqui para frente ficará cada vez mais difícil melhorar sem mudanças na qualidade.

O Ceará é o Estado que mais avançou na municipalização e, portanto, cabe aos novos prefeitos tomar em suas mãos os desafios de promover um saldo de qualidade. O Governo estadual pode estimular e dar rumos, como vem fazendo. Mas reformar a educação é difícil e requer enorme prudência, competência, foco e pontaria. Resta saber se os candidatos a prefeito vão enfrentar (bem) esse desafio. O futuro de nossos filhos depende disso.

João Batista Araujo e Oliveira

joao@alfaebeto.org.br

PhD em Educação e presidente do Instituto Alfa e Beto

O Povo