Presidente do Inep propõe “Enem light” para aluno do 1º ano do Ensino Médio

Em evento em Brasília, Luiz Cláudio Costa sugere um Enem voluntário, sem nota para o estudante, que possa ser utilizado pelas escolas apenas para fins pedagógicos; ministro da Educação, Aloizio Mercadante, diz que proposta será discutida pelo MEC

Fonte: O Estado de S. Paulo (SP)

O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Luiz Cláudio Costa, propôs ontem a aplicação de um Enem ao fim do 1.º ano do Ensino médio. A proposta foi feita no encerramento do seminário Acesso ao Ensino Superior no Brasil e nos EUA: Enem e o SAT, em Brasília.

“Um Enem que não vale nota (para entrar na universidade), mas que depois a Escola receba informações sobre o desempenho do estudante que possam induzir políticas de melhora”, explicou Costa, após o evento.

O presidente do Inep observou que a discussão foi apenas lançada e o assunto será mais discutido dentro do Inep e do Ministério da Educação (MEC). “É um debate acadêmico que precisa ser feito.” O “Enem light” seguiria o mesmo formato do tradicional, mas teria apenas fins pedagógicos, com adesão voluntária. Serviria, segundo Costa, como um “raio X” do 1.º ano do Ensino médio, quando se registram as maiores taxas de reprovação.

“Pode ser um exame importante para ter um diagnóstico já no 1.º ano. Temos de ver do ponto de vista orçamentário as nossas possibilidades, mas isso será debatido, sim”, disse o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. “O Enem é a grande motivação no Ensino médio.”

A proposta de ampliação do exame foi feita um dia após o ministro confirmar que o governo quer mudar a fórmula de cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação básica (Ideb) do Ensino médio, trocando a Prova Brasil pelo Enem. Para Mercadante, o Enem é um “termômetro” mais adequado.

SAT. Costa discutiu ontem o acesso ao Ensino superior no Brasil e nos Estados Unidos com diretores do College Board, associação integrada por cerca de 6 mil instituições americanas que, entre outras funções, realiza o Scholastic Assessment Test (SAT), teste que representa a principal porta de acesso às universidades americanas.

O diretor do SAT, Steve Kotten, destacou a importância de políticas de segurança para garantir o êxito da aplicação. ” Se não fizermos isso, vamos comprometer a integridade do exame e seremos cobrados pelas universidades. Há um nível de confiança entre nós.”

O SAT foi abalado recentemente por um escândalo envolvendo estudantes que falsificavam a identidade para fazer a prova em nome de outras pessoas, o que obrigou as autoridades a reforçarem as medidas de segurança. “As consequências são muito importantes”, defendeu Kotten, lembrando que em muitos casos foi necessária a ajuda da polícia para encontrar os responsáveis.

Questionado sobre o número de questões no banco do SAT, o diretor respondeu: “Não sei. E, mesmo que se soubesse, não te diria”. Em junho, o MEC classificou como “reservada” a informação sobre o número de itens do Banco Nacional de Itens, espécie de armazém de questões dos exames realizados pelo Inep.

Segundo Kotten, cerca de 3% das redações do SAT são submetidas a um terceiro corretor – no último Enem, o índice foi de aproximadamente 10%, segundo o Inep. No exame americano, as notas são dadas numa escala de a 1 a 6 – discrepância superior a 1 ponto leva a redação ao terceiro corretor, que dá a nota final.

Uso de exame para avaliar educação básica pode gerar distorção
O uso do Exame Nacional do Ensino médio (Enem) no cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação básica (Ideb), proposto pelo ministro Aloizio Mercadante, pode não representar a realidade de todas as Escolas do País. No exame de 2010, o último com os dados disponíveis, 60% das Escolas tiveram menos da metade dos Alunos no Enem. Em apenas 7,6% das unidades mais de 90% dos Alunos fizeram o exame.

Estados em que as Escolas tiveram menor participação também registraram as mais baixas notas no Ideb. Em Alagoas – que tem o pior índice do País (2,6,) -, 77,9% das Escolas não tiveram nem metade dos estudantes no Enem. Logo em seguida, vêm o Amapá e o Pará, com pouca adesão e notas abaixo da média nacional.

Os dados mostram que não é totalmente certa a teoria de que o Enem tem representatividade censitária, como defende Mercadante. Além disso, o exame é feito por Alunos mais preparados, mais focados na universidade, e as piores Escolas têm uma proporção menor de Alunos no exame. Isso também explica a melhora de desempenho maior do que a registrada no atual modelo de amostragem do Ideb, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação básica (Saeb), composta de 70 mil Alunos. A partir disso são calculadas as médias estaduais.

Um levantamento feito pelo economista Ernesto Martins Faria, do blog EstudandoEducação, mostrou que as Escolas têm menor participação são as que têm mais Alunos atrasados e vulneráveis socialmente e, consequentemente, piores notas.

Segundo um ex-funcionário do alto escalão do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), o problema de adotar o Enem é a abrangência. “Quem faz o Enem são os melhores Alunos em geral, o que beneficia as piores Escolas”, diz ele, que pediu anonimato. “Mas é importante manter o que já existe com o Saeb.”

No Enem 2010, 1.011.952 concluintes fizeram o exame. O MEC defende que, em 2011, 1,5 milhão de inscritos eram concluintes. Em média, formam-se no 3.º ano 1,8 milhão de Alunos.

O Professor da Federal de Minas Gerais Francisco Soares defende a medida e diz ser possível conciliar as réguas do Enem e do Saeb. Segundo ele, há riscos de desvios nas notas, mas isso também ocorre hoje. “Não há empenho do Aluno em uma prova que não vale nada para ele, ao contrário do Enem. Mas tudo tem soluções técnicas, como escolher Escolas que representem a realidade. E é importante não passar a ideia de querer só melhor a nota.”

A mudança pode possibilitar a divulgação do Ideb por Escola. Segundo Soares, isso é positivo caso haja soluções que evitem a seleção de Alunos para inflar a nota.

Mercadante deu 60 dias para o Inep apresentar um estudo de compatibilização das duas réguas de notas.

Dilma quer 100% dos royalties de petróleo para a educação
A presidente Dilma Rousseff afirmou ontem, durante audiência com membros da União Nacional dos Estudantes (UNE), que apoia que o Congresso aprove a vinculação para aEducação, por dez anos, de 100% da verba dos futuros contratos dos royalties do petróleo e do pré-sal, assim como 50% do Fundo Social, que receberá recursos da exploração da camada do pré-sal.

Com a identificação da fonte e recursos, o governo poderia garantir investimentos de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em Educação, o que a UNE pleiteia. A informação é do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e do presidente da UNE, Daniel Iliescu. “É o compromisso da presidenta”, disse Mercadante. Ele não soube estimar o volume de recursos que seriam canalizados para a Educação.