Em defesa da universidade brasileira

A história é bem conhecida de todos. Fomos, na América Latina, o último país de expressão política e social a criar os primeiros cursos superiores. É verdade que a criação de uma universidade no Rio de Janeiro, com a finalidade estratégica de conceder um título de doutor Honoris Causa ao rei da Bélgica, de passagem pelo Brasil, recobre uma meia-verdade; porém reflete o viés da improvisação que acompanha a construção do Estado brasileiro e de suas instituições, desde os primeiros tempos republicanos a esta assanhada República tão pouco republicana em que vivemos.

Projeto de lei posto sobre a mesa da presidente Dilma Rousseff destina 50% das vagas para acesso às universidades públicas como reserva para estudantes provenientes de escolas públicas. Consciente dos resultados pífios alcançados pelas escolas públicas em pesquisa recente, o Ministério da Educação anuncia a criação de cursos de nivelamento, nas universidades federais, destinados aos novos ingressantes, oriundos da rede pública de educação, com a finalidade, segundo diligentes fontes ministeriais, de “garantir aos alunos conhecimentos necessários para atender as exigências dos cursos”.

Não temos a melhor das universidades, assim o demonstram as pesquisas realizadas, em plano internacional, sobre a educação superior. Como instituições universitárias ou sistemas educacionais de nível superior, situamo-nos em posição inferior em todos os “rankings” produzidos, não importa qual a metodologia de avaliação empregada. A pressão por vagas e a imposição dessa forma enviesada de “democratização” do acesso à universidade brasileira pública (a universidade privada é uma caixa preta a ser aberta), com a criação de reserva de vagas para minorias étnicas e estudantes da rede pública, em percentual de metade-metade, forçarão a única solução possível, por isso mesmo a mais trágica – a da redução dos critérios mínimos de exigência para o prosseguimento dos estudos superiores. A “recuperação” do aluno que chega à universidade, mediante um programa de reciclagem relâmpago não pode ser levada a sério.

Em matéria educacional, a inclusão social só poderá ser alcançada, sem reflexos negativos sobre os poucos ganhos até hoje acumulados pelas nossas universidades, na medida em que ela se realize racionalmente, com investimentos regulares e constantes e uma política de compromisso social, com a consolidação de um modelo de ensino médio e fundamental consistente, numa escola de boa qualidade, com professores bem remunerados e adequadamente qualificados, livres da manipulação político-partidária e sindical de que têm sido vítimas até hoje.

Segundo a lógica olímpica, não faz sentido reduzir os desafios, mas treinar os atletas para enfrentá-los. Ou será que pretendemos escolher os nossos atletas para 2016 segundo o critério de reserva de vagas?

Paulo Elpídio de Menezes Neto

pedmn@globo.com

Cientista político

O Povo