“Vamos investir R$ 1,4 bilhão na Educação”

FOTO: ANDERSON SANTIAGO / O ESTADO

O sociólogo André Ramos, 30 anos, é o mais jovem entre os candidatos à Prefeitura de Fortaleza. Desta forma, foi com naturalidade que o principal tema da entrevista concedida ao jornal O Estado fosse, justamente, sobre a juventude. Entre os assuntos discutidos, o candidato falou sobre as políticas públicas para o combate ao avanço das drogas entre os jovens fortalezenses e sobre a falta de qualificação da mão de obra juvenil.

André Ramos também criticou os Ensinos Básico e Fundamental em Fortaleza e prometeu, caso eleito, que implantará, efetivamente, o piso nacional para os professores da rede pública. “Hoje, do Orçamento de R$ 5 bilhões, apenas R$ 900 milhões são destinados à Educação. Nossa ideia é aumentar esse valor para, no mínimo, R$ 1,4 bilhão”, disse. Seguem, abaixo, os principais trechos da entrevista.

 [O ESTADO] O senhor é o candidato mais jovem entre os postulantes à Prefeitura de Fortaleza. Neste sentido, qual são as suas propostas para a juventude?
[ANDRÉ RAMOS] 
Pensamos na juventude em duas vertentes: oportunidade e Educação, principalmente na base. Hoje, estamos vivendo uma crise da escola pública nos âmbitos estadual e municipal.

Nossas crianças estão passando por essas escolas sem aprender direito. No ensino fundamental, elas saem sem aprender a ler e no ensino médio, saem sem a menor condição de disputar o vestibular. Os alunos da rede pública estão, hoje, fadados ao subemprego. Nós queremos preparar mais esses jovens.

Uma das iniciativas seria transformar o Cuca em um espaço de ensino profissionalizante. Outra iniciativa, do ponto de vista pedagógico, seria acabar com a aprovação automática e devolver ao professor a autoridade em sala de aula. Nós queremos, também, que os alunos e professores fiquem mais tempo nas escolas. Hoje, para o professor atingir um salário razoável, precisa ter várias turmas em várias escolas diferentes. Ele não tem tempo para planejamento de aula.

Em consequência disto, o salário é menor. Hoje, a Prefeitura só atende ao piso nacional dos professores com as gratificações, e não na base do salário do professor. Nós queremos atingir o piso nacional no salário base do professor. Nós queremos um professor mais perto dos alunos e integrados com os pais. Também queremos abriras escolas aos finais de semana, de modo que os alunos possam realizar atividades esportivas, de reforço escolar, de línguas, etc.

Nossa proposta, então, na área da Educação, resume-se a: queremos dar um jeito no Ensino Fundamental, assim como no Ensino Infantil. A um déficit muito grande de creches. Hoje, apenas 11% das crianças em idade escolar estão nas creches, de modo que precisamos municipalizar e aumentar a quantidade de creches. Assim, nossa proposta é preparar a juventude de forma que ela possa disputar esse mercado de trabalho que está abrindo-se na nossa Cidade, afinal, somos uma das cidades-sede da Copa, e os nossos jovens estão ficando para trás.

[OE] E como viabilizar financeiramente essas propostas?
[AR] 
Nós pretendemos aumentar a verba da Educação. Hoje, do Orçamento de R$ 5 bilhões, apenas R$ 900 milhões são destinados à Educação. Nossa ideia é aumentar esse valor para, no mínimo, R$ 1,4 bilhão.

[OE] Ainda sobre as políticas voltadas para a juventude, como o senhor pretende enfrentar essa questão do consumo de drogas?
[AR] 
Fala-se muito, nos âmbitos municipal, estadual e federal, da questão da prevenção ao uso de drogas. Campanhas e mais campanhas de prevenção ao uso do crack, etc. Temos duas preocupações. A primeira, a alternativa para os jovens que não seja a droga. Enquanto os jovens sofrem com a falta de emprego e de possibilidades, eles têm, na esquina ao lado, a possibilidade de fugir dessa realidade. Então, nós entendemos, como uma política de combate às drogas, possibilitar mais Educação, mais Cultura e oportunidades para os jovens. E, em segundo, a questão do viciado. E, não são somente os jovens, não. Hoje, há inúmeros casos de pais de família, agricultores, principalmente no interior do Estado, que estão se viciando em drogas e que acabam destruindo um núcleo familiar inteiro. Então, temos que dar a possibilidade de essas pessoas se tratarem. Hoje, no Poder Público, ele praticamente não tem essa possibilidade. Em Fortaleza, temos 13 Caps, dos quais apenas dois são para tratar casos de álcool e drogas. Leitos para internamento, então, praticamente não existem.

Por fim, temos que investir nas políticas de reintegração desses jovens à sociedade através de cursos, qualificação, etc. A Prefeitura, através de incentivos, pode, com o comércio, com as indústrias, com as empresas, criar programas que ajudem esses jovens a serem inseridos de novo à família, ao emprego e à sociedade.

[OE] E quanto à informalidade, que grassa em Fortaleza, o que o senhor pretende fazer?
[AR] O fortalezense tem, hoje, o segundo pior salário do Brasil, e a informalidade é um dos caminhos que tornam precárias o trabalho. Nos temos essa vocação natural para o turismo. Mas, outras grandes cidades com potencial turismo, como Londres, Madri, Paris, se formos observar, não deixaram de lado a industrialização. Hoje, isso não é um problema só da nossa Cidade, estamos sofrendo um processo de desindustrialização. A indústria, além de pagar melhor, eleva o nível do salário dos trabalhadores. O salário na indústria, hoje, é três vezes superior ao pago no setor de comércio. Nós não vamos resolver esse problema da informalidade investindo senão invertirmos, na atração de indústrias a Fortaleza.

[OE] E qual o papel da Prefeitura na questão da mobilidade urbana?
[AR] 
Pensar em infraestrutura urbana, a gente vai para a questão de mobilidade. E, na opinião do Partido Pátria Livre, não tem como resolver a questão da mobilidade urbana se a gente não resolver o problema do transporte público. Um transporte público de qualidade, eficiente, que possa levar o cidadão a locomover-se dentro da Cidade de forma mais confortável, segura, e, claro, mais rápido. Hoje, o trabalhador assalariado, com carteira assinada, não pensa duas vezes, ele vai a uma concessionária tira um carro em 90 ou 120 vezes, porque por mais que ele demore muito tempo no deslocamento com o seu carro, ele não vai sofrer com a superlotação dos ônibus. Hoje, cerca de 50% da população utiliza o transporte público, então, queremos investir em um transporte de qualidade. Agora, à população está tendo a oportunidade do metrô.

Aproveitando isso, iremos investir na construção de mais estações, implementando o novo sistema. Também pretendemos investir em corredores exclusivos de ônibus, interligando os terminais. Caso eleito, irei conversar com o governador [Cid Gomes] para que possamos integrar a passagem do metrô com o transporte coletivo, além da implantação de linhas mais curtas, no caso dos transportes alternativos.

[OE] Quanto à implantação de ciclovias, qual sua avaliação?
[AR] 
Muitos trabalhadores ainda utilizam a bicicleta. Então, pensamos na implantação de ciclovias, pois não é somente uma opção de uma vida mais saudável e, ecologicamente, correta. É uma questão de economia. Mas, queremos juntar a possibilidade de uma vida saudável com a possibilidade do trabalhador, também, utilizar o transporte público. Outro objetivo é implantar os bicicletários nos corredores exclusivos, como paradas e nas estações de metrô, para que as pessoas tenham a opção de chegar com a bicicleta até esses corredores maiores e os ônibus com a sua prioridade absoluta, em que, eles vão andar mais rápido e articulados. Desta forma, as pessoas que tiverem o seu carro tenham espaço para locomoção.

[OE] Qual o papel da Prefeitura na questão de atrair as indústrias e, consequentemente, atrair novos empregos e aumentar a renda da população?
[AR] 
Precisamos utilizar melhor o Anel Viário, Fortaleza não aproveita. Não é à toa que muitas indústrias estão indo para as Regiões Metropolitanas. Além dos problemas nas rodovias que passam dentro da Capital, não oferecemos possibilidades ao setor. Outra coisa é aproveitar o Porto do Mucuripe, no qual vai gerar emprego e agregar valores aos serviços. Iremos ainda valorizar o turismo. Algumas áreas sofreram com o processo de desindustrialização, como a região da Avenida Sargento Hermínio, Antônio Bezerra e Montese. O que precisamos fazer é resgatar este potencial e implementar outros, por exemplo.

[OE] Caso eleito, o senhor estará à frente da Prefeitura. Quais suas expectativas sobre o legado do Mundial para a Cidade?
[AR] 
Acho que será um desafio enorme, o legado da Copa. Contudo, é uma oportunidade de melhorar a infraestrutura. Acho fundamental que estas obras interfiram na vida do fortalezense, sobretudo para melhorar a malha urbana. Outro desafio é a especulação imobiliária, para que os objetivos não sejam obtidos somente pelos donos do capital econômico. Me preocupa, também, os moradores das áreas de risco que estão sendo deslocados, por conta das obras do Veículo Leve sobre Trilhos(VLT). Sou a favor do progresso, mas que seja positivo para população e não negativo, para que, futuramente, possamos pensar em medidas paliativas.

Quanto à questão do planejamento da malha urbana, a cada gestão só se vê a política do asfalto. É impressionante a política do Tapa-Buraco. Se pegarmos o Orçamento, se faz investimentos grandes. Todavia, sem planejamento. Se eleito, queremos apresentar um Plano de Planejamento de Pavimentação da Cidade à Câmara Municipal. Não queremos atender problemas momentâneos. Se resolvermos o problema da pavimentação e do transporte coletivo, resolveremos o status do transporte individual.

O Estado CE