Duas realidades bem distantes no ensino

Por Renato Deccache – renato.deccache@folhadirigida.com.br

Os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) trouxeram, pelo menos, dois cenários para o ensino do país. De um lado, o ensino fundamental, principalmente até o 5º ano, mostra uma evolução, para muitos, animadora. Na outra ponta, o Ideb do ensino médio encontra-se praticamente estagnado, mostrando que o êxito que se consegue nos primeiros anos do processo educacional é mantido ao longo dos anos de formação.

Porém, mesmo no ensino fundamental, que registrou os melhores resultados, ainda há muito por fazer no país. O quadro preocupa na medida em que os números são analisados de maneira mais ampla. Se o país tem a comemorar o fato de que, até o 5º ano, o Ideb médio das cidades foi de 4,7 (o patamar da educação de países ricos é 6,0), tem a lamentar que essa é uma realidade distante de muitos brasileiros.

Dos 5.296 municípios que possuem escolas com turmas do 1º segmento do ensino fundamental, 47% ficaram com índice abaixo da média nacional. Nos anos finais, 64% das cidades não alcançaram os 3,8 pontos do Ideb geral das redes municipais.

As turmas de 6º ao 9º ano também apresentam quadro mais preocupante com relação às metas. Em cerca de 40% das cidades, não foram alcançadas as projeções feitas pelo MEC. O quadro é um pouco melhor no primeiro segmento, com 28%. Porém, mais uma vez quando aproxima-se a lupa sobre os dados, novas disparidades tornam-se evidentes. Na análise por escola, no segmento de 1º ao 5º ano, cerca de 40% não atingiram as metas, índice que sobe para 44,9% na segunda parte do ensino fundamental.

No ensino médio, quadro é bem mais preocupante
Se há o que comemorar, mesmo com algumas ressalvas, no ensino fundamental, o mesmo não se pode dizer do ensino médio que, nos últimos anos, tem experimentado um quadro de estagnação no país. Desde 2005, o Ideb cresceu, no índice geral do país, apenas três décimos, um quarto do que evoluiu o indicador nos primeiros anos do ensino fundamental. Após as duas primeiras divulgações, nas quais a meta para o segmento, no país, foi batida por 0,1 ponto, em 2011, nem isto aconteceu: no geral, as escolas ficaram com os mesmos 3,7 pontos de dois anos atrás.

Não é difícil entender por que o ensino médio é o gargalo da educação brasileira atualmente. Uma das bases para o cálculo do Ideb, a taxa de aprovação na rede pública, em 2011, foi de 75,2%. O país até registrou crescimento no indicador (era de 70,6% em 2005), mas a evolução foi pouco expressiva. Só no 1º ano do ensino médio, onde o quadro é mais problemático, o indicador é de 67,8% na rede pública.

Completa o panorama trágico do ensino fundamental a outra variável do cálculo do Ideb, que é o desempenho dos estudantes em avaliações nacionais: a Prova Brasil, no caso do ensino fundamental, e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), para o ensino médio. Nos últimos três anos da escolarização básica do país, em Matemática, a nota média dos jovens só subiu 3,54 pontos (de 271,29 para 274,83). Em Português, a evolução foi maior, mas também não entusiasma: de 257,60, no ano de 2005, para 268,57 em 2011.

Os principais indicadores do Ideb de 2011 foram anunciados pelo MEC na última terça, dia 14. O ministro Aloizio Mercadante destacou o cumprimento das metas estabelecidas, desde 2005. Em alguns casos, como no primeiro segmento do ensino fundamental, foi superado o objetivo estabelecido para 2013.

Segundo o MEC, com o passar dos anos, tem caído o número de alunos em escolas que não superam as metas no segundo segmento. Em 2005, um total 7,1 milhões de crianças estudavam em escolas com avaliação abaixo de 3,8 — média nacional de então. Em 2011, este número caiu para 1,9 milhão. Segundo o MEC, 4,2 milhões de crianças estão matriculadas em unidades escolares com índice superior a 5,0, média geral para o primeiro segmento.

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Palavra dos educadores

O que é preciso para melhorar a qualidade do ensino público?

“A primeira questão é o massivo investimento na formação continuada dos professores. A segunda, é o investimento na estrutura física das escolas. O terceiro aspecto que considero muito importante é o investimento em políticas públicas de melhorias de patamar salarial para os professores. Em quarto, acho relevante a inserção de tecnologias na educação, o que acho que melhoria bastante.

Outro ponto é a criação, nas escolas, de equipes multidisciplinares que possam trabalhar junto com os professores. Problemas que se tornam crônicos na aprendizagem poderiam ser detectados e resolvidos muito anteriormente se ele fossem cuidados no momento certo.

Muitos dizem que os alunos brasileiros têm dificuldade em aprender. Acredito que, em termos de potencial de aprendizagem, os alunos brasileiros não são diferentes das crianças, jovens e adultos de outras partes do mundo. Acho que temos uma estrutura de avaliação que valoriza alguns critérios que são muitos acadêmicos e existe uma diferença bastante grande entre aquilo que o aluno pode e é capaz de fazer e aquilo que ele manifesta com os instrumentos de avaliação aplicados. Em termos de potencial cognitivo, o aluno brasileiro não deve absolutamente nada a outros países. Mas, se observarmos, por exemplo, questões de ligadas à igualdade social, ainda ficamos atrás.”

Eloiza da Silva, professora do Departamento de Educação da Uerj

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“É preciso começar a melhoria da qualidade na educação infantil. Depois, podemos passar para a educação básica média até o ensino superior. Também é importante melhorar a condição salarial dos professores. Sem isso, sem valorizar a carreira, é impossível ter uma educação de qualidade.

O segundo fator é ter profissionais capacitados, que possam se preparar e estar aptos a estudar. Tem que ter uma atualização permanente de professores do ensino básico ao universitário, frequentando escolas de educação e só assim podemos melhorar o padrão da educação básica. E toda criança deve ter as mesmas oportunidades.

O padrão de ensino de qualidade deve ser o mesmo para todas as escolas. Isso é fundamental. Um terceiro item, é a criança receber cuidados especiais adequados desde a infância. Sabemos que a criança que não se alimenta bem até os 6 anos de idade pode sofrer alterações no sistema nervoso que são irreversíveis. Uma criança bem assistida do ponto de vista nutricional e médico rende muito mais no futuro e poderá ser um estudante com melhores possibilidades de aprendizado.

Também é necessário rever como as escolas estão ensinando os alunos. Creio que muitos alunos têm dificuldades porque os meio de ensino não evoluíram. Acho que são os métodos de ensino que deixam a desejar. É preciso investir nesta criança sob todos os aspectos.”

Pietro Novellino, membro da Academia Brasileira de Educação

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“O principal problema é metodológico. Os professores trabalham da mesma forma e com a mesma didática do passado, com uma agravante: nos tempos da formação de uma “normalista”, ao final do curso esta professora sabia fazer muito bem duas coisas, alfabetizar uma criança e ministrar bem  uma  aula. Hoje, quando concluem as licenciaturas em Pedagogia, não sabem nem uma coisa, nem outra. As faculdades marcam os currículos com muita teoria e pouquíssima prática.

Não mudando a metodologia, se o professor não souber dar aulas, se não houver participação dos alunos, se não fizerem uma “lipoaspiração” nos conteúdos, de nada adiantará enviar “tablets” aos professores e alunos. A primeira mudança deverá ocorrer na formação do professor e em seu interior, para surgir um pensamento adepto de atualização constante. Também é preciso desenvolver habilidades básicas no aluno. Muitos têm dificuldades de aprendizagem por não dominarem plenamente a leitura.

Além disso, os materiais didáticos não são adequados ao desenvolvimento psicológico da criança, porque a linguagem usada por muitos educadores é incompreensível para os alunos, porque os alunos não sabem ler, porque as metodologias não são adequadas, pelo estado de decepção em que se encontram os docentes, entre outros aspectos.”

Hamilton Werneck, pedagogo, escritor e palestrante

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“O grande problema da educação brasileira não está nas salas de aula. É necessário melhorar o processo de gestão. O Brasil hoje tem 220 mil escolas, com 185 mil públicas e 35 mil particulares. As escolas públicas são responsáveis por grande parte do trabalho de formação de jovens e crianças no país, considerando que atende toda a população.

A escola particular já é opção, já é para quem está disposto a gastar uma certa quantia. Apesar do esforço de diretores e professores de escolas, secretários municipais e estaduais, o grande problema é que há um costume ultrapassado de escolha institucional. Então existem escolas com bons professores, estrutura razoavelmente boa, mas o rendimento é ruim por que falta um conjunto de medidas que permitiriam uma administração mais eficiente.

Outro problema é a formação dos profissionais que atuam tanto na área de gestão educacional quanto na área de educação de aula. Nós temos ainda conteúdos e formas de transmitir o conhecimento muito fora de contexto mais adequado para uma juventude que já vê um mundo de forma diferente. Temos que trabalhar a formação, organização de currículos e qualificação dos gestores. Além disso, temos que ter também um programa de requalificação dos atuais profissionais em serviço. Temos profissionais formado há 10 anos atrás que já estão certamente defasados.”

João Roberto Moreira Alves, presidente do Instituto de Pesquisas Aplicadas a Educação

Folha Dirigida