Docentes em pauta

Durante mais de um ano oito pesquisadores, sob a observação de Prof. Adilson Citelli, coletaram e analisaram as mensagens divulgadas por diferentes meios de comunicação sobre os professores. O trabalho resultou no livro “Educomunicação: a imagem do professor na mídia” que traça panorama sobre os olhos viciados  com que a imprensa observa os docentes.  

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Gabriela Bueno de Moura*

O nome pode soar estranho aos ouvidos, ‘Educomunicação’. O tema trata de uma linha ainda não muito explorada aqui no Brasil, os limites entre a educação e a comunicação. Dentre os possíveis desdobramentos que o assunto permite estabelecer está a relação entre o docente e a mídia, tema que foi o eixo da pesquisa do livro “Educomunicação: a imagem do professor na mídia”.

Para compor a obra, foram convidados oito pesquisadores, entre mestrandos e doutorandos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, que, sob a orientação do livre docente Adilson Citelli, observaram ao longo de mais de um ano as mensagens que circularam em variadas mídias – jornal, rádio, televisão, internet, publicidade e cinema – com o objetivo de apreender como neles se dá o processo de representação dos professores.

A partir da análise crítica do material coletado, os autores desenvolveram uma densa reflexão sobre a imagem que a mídia tem do professor, na maioria das vezes vitimizado e estereotipado.

Conversamos com o organizador da obra, Adilson Citelli, sobre o processo de produção do livro e a visão dos docentes pela imprensa. As melhores partes dessa conversa podem ser conferidas ao lado.

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Qual foi a motivação inicial para o projeto do livro?

Somos nove autores que nos lançamos ao desafio de verificar em que medida os professores, sobretudo aqueles do ensino básico, são representados pelos meios de comunicação. Optamos por investigar mídias como jornal, televisão, rádio, cinema, internet, publicidade e revistas, realizando, a partir daí, uma série de pesquisas no intuito de identificar, descrever, analisar, comentar e promover conclusões acerca das formas destas representações.

De qual maneira funcionou a elaboração da obra? Os oito pesquisadores foram convidados ou selecionados? Qual foi o critério de escolha?

Coordeno um grupo de pesquisa do Departamento de Comunicações e Artes da USP formado por mestrandos e doutorandos que se dedicam a estudos de temas próprios da Educomunicação. Nesses últimos dois anos, o grupo sentiu-se estimulado a investigar como o professor, sobretudo do ensino médio, é mostrado através das mídias. Entendemos que essa imagem pública é uma construção e que os meios de comunicação, em grande parte, também são responsáveis por configurá-la e sedimentá-la. No Brasil, somos mais de um milhão de professores e, no estado de São Paulo, próximo dos duzentos e setenta mil. Como aparecemos na mídia? Tentar responder a esta pergunta nos motivou a organizar a referida pesquisa. O resultado preliminar dessa investigação foi apresentado na XXXIV reunião anual do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (INTERCOM), realizado no ano passado,em Recife. Depoisdisso, organizamos os textos que compõe o livro, de forma mais articulada, com mais dados e informações, e o resultado final é o se lê em “Imagens do Professor na Mídia”.

TODOS ESSES ARTIGOS DEVEM SER PENSADOS NO INTERIOR DAS REFLEXÕES EM ANDAMENTO NO CAMPO DA COMUNICAÇÃO/EDUCAÇÃO, OU, EDUCOMUNICAÇÃO. ELES DECORREM, PORTANTO, DE MÉTODO DE TRABALHO ANCORADO NO INTENSO DIÁLOGO ENTRE OS AUTORES QUE, EM ATITUDE COLABORATIVA, DEBATERAM CADA UM DOS TEXTOS, FAZENDO SUGESTÕES, APROFUNDANDO PONTOS, SUGERINDO BIBLIOGRAFIA.

Esta marca cooperativa e interativa como estratégia de produção do conhecimento científico vem sendo perseguida pela educomunicação.

Em sua avaliação, como o professor é visto pela mídia?

Considerando os textos que apresentamos nesta coletânea, eu diria que, no geral, a composição de imagens que os meios de comunicação fazem dos professores é muito problemática. É raro encontrar a voz do próprio docente em matérias saídas nos jornais, na televisão e no rádio.

SE O JORNALISTA VAI FAZER UMA MATÉRIA SOBRE EDUCAÇÃO, SERIA DE SE ESPERAR QUE ELE OUVISSE OS PROFESSORES, MAS ISSO RARAMENTE ACONTECE.

Em linhas gerais, localizamos quatro modelos de apresentação da imagem do professor nos grandes meios de comunicação. Primeiro, uma visão muito negativa, na qual se destaca um sujeito absolutamente desinteressado, alguém com pouca vontade de promover mudanças no mundo da educação. Segundo, a ideia de que o professor é malformado, pouco capaz de interferir no trabalho cotidiano da escola, inapto para enfrentar os desafios colocados pelas tecnologias, pelas novas demandas dos jovens. Terceiro, aquilo que já se constitui numa espécie de estereótipo e aparece muito em campanhas publicitárias: uma figura de meia idade, de avental branco, geralmente de óculos, um compósito cenográfico reduplicado no imaginário popular. E quarto, a projeção vitimizada do professor: um sujeito que ganha mal, viaja longos percursos para dar aula, sendo objeto de violência social, simbólica, física.

Dentre os vários canais de comunicação tradicional, televisão, rádio e jornal impresso, é possível identificar uma cobertura diferenciada de algum veículo específico?

Digamos que existe um comportamento padrão, reiterado conforme as quatro categorias postas acima. Jornais, televisões, revistas semanais parecem haver composto a marchinha de uma nota só.

NO GERAL O NÍVEL DA COBERTURA JORNALÍSTICA ACERCA DA EDUCAÇÃO FORMAL É MUITO RUIM. ALIÁS, ASSISTIMOS, NESTE ASPECTO, A UMA REGRESSÃO DO QUE JÁ EXISTIU EM PARTE DA IMPRENSA, QUE MANTINHA EDITORIAS E EXCELENTES PROFISSIONAIS DEDICADOS AO ASSUNTO.

O senhor possui referencias de como os professores, e o tema educação, são tratados em outros países? Se sim, como funciona essa cobertura? Quais são as maiores diferenças deles para nós?

É um pouco difícil responder a esta pergunta, pois implicaria proceder a estudos comparativos que ainda não fizemos, e, sobretudo, tendo em vista que se está considerando uma diversidade de sistemas educativos e mesmo midiáticos.

Na internet, devido às experiências de troca de informações e compartilhamento, há uma visão diferente sobre os docentes, ou ela acompanha os meios tradicionais de comunicação?

Do mesmo modo é difícil tratar, de modo genérico, desta questão. Precisaríamos saber se a pergunta envolve os sites específicos de educação, as reduplicações digitais dos grandes veículos de comunicação, as redes de compartilhamento, etc. Em um dos artigos do nosso livro, a autora examina algumas características da representação dos docentes na internet, o texto se chama: “Estigma ou emancipação: da imagem do professor na web à formação para a docência”.

Revista Giz