A primeira travesti doutora do Brasil

Há algum tempo os olhares da mídia se voltam para a história de Luma Andrade e anunciam seu ineditismo. Finalmente, hoje, 17 de agosto, a travesti de Russas (CE) defenderá a tese “Travestis na escola: assujeitamento e resistência à ordem normativa”, na Faculdade de Educação, da Universidade Federal do Ceará (UFC), tornando-se a primeira travesti doutora do Brasil.

Como informa o resumo da tese, a partir da narrativa de alunos, professores e gestores, Luma analisa as experiências de jovens travestis em escolas da rede estadual de ensino, bem como suas estratégias de enfrentamento aos preconceitos.

Sim, uma travesti doutora. O acontecimento não representa apenas uma vitória pessoal de Luma, mas demarca, sobretudo, uma fissura nos discursos da própria mídia, que historicamente limitaram as experiências de travestis à prostituição e à criminalidade, apontando para novas possibilidades de vivência das travestilidades contemporâneas. Estaremos mais próximos de um tempo e de uma sociedade em que as travestis terão condições políticas, sociais e econômicas de serem o que desejarem – doutoras, médicas, advogadas, motoristas de ônibus ou filósofas?

Em um estado como o Ceará, que lidera o ranking nordestino com mais casos de homofobia e onde uma travesti como “Bixa Muda” quase teve sua candidatura à Câmara de Vereadores impugnada – o que demonstra por parte de algumas instituições a suspeita acerca da “saúde mental” de quem transgride as normas de gênero –, Luma, sua história e seu ineditismo que tanto fascinam a mídia, não são apenas uma exceção. É a regra que cambaleia.

Luma quer nos dizer que, apesar da violência física e simbólica sofrida cotidianamente pelas travestis no Brasil, no Ceará machista e homofóbico, na escola despreparada para acolher a diversidade, as travestis lutam cotidianamente por uma vida digna de ser vivida e têm conquistado novos lugares, produzido novos discursos, experimentado novos desejos.

Elias Ferreira Veras

eliashistoria@yahoo.com.br

Historiador

O Povo