Pior Ideb: docentes de AL ganhavam melhor do que primeiros colocados

Mesmo pagando um salário para os professores da rede estadual superior a outros Estados no ano passado, Alagoas obteve o pior desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2011, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) nesta quarta-feira. Segundo levantamento feito com dados de julho do ano passado pelo Sindicato dos Professores do Ceará (Apeoc), os professores alagoanos recebiam mais do que os docentes de Minas Gerais e Santa Catarina, que dividem os melhores índices do ensino básico.

Ideb: veja as melhores escolas do ensino fundamental
Confira os números do Ideb 2011 por Estado

A pesquisa mais recente do Inep mostra que os estudantes alagoanos dos anos iniciais do ensino fundamental público obtiveram média de 3,5 no índice que varia entre 0 e 10. Já o desempenho dos alunos dos anos finais caiu de 2,7 em 2009 para 2,6, ficando abaixo da projeção para este ano. Os alunos de ensino médio do Estado também registraram 2,7, menos do que a projeção de 3,1. O Ideb é calculado a partir do rendimento escolar e do desempenho médio em exames como a Prova Brasil e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb).

O salário-base dos professores da rede estadual em Alagoas em julho de 2011 era de R$ 2.089,99 para jornada de 40 horas semanais, 8ª posição entre os Estados brasileiros. Em Minas Gerais, Estado que atingiu 5,8 no Ideb para anos iniciais do ensino fundamental – a melhor marca no País -, o salário-base dos professores estaduais em 2011 era o 25º do Brasil: R$ 950. No ranking do Ideb, em seguida, vem Santa Catarina, com os melhores desempenhos nos anos finais do ensino fundamental (4,7) e no ensino médio (4,0) de escolas públicas. Lá, o salário-base no ano passado era de R$ 1.561,45 para 40 horas semanais.

Os Estados que figuram no topo da lista do Ideb também eram superados pelo salário dos professores estaduais do Sergipe em 2011. O 9º no ranking das remunerações da Apeoc pagava em média R$ 2.008,35 em 2011, mas acabou no pódio dos piores índices do último Ideb. Nos anos iniciais e nos anos finais do ensino fundamental, o Estado é o segundo pior, com 3,6 e 2,9, respectivamente. Em relação ao Ensino Médio, Sergipe tem o terceiro pior índice: 2,9.

A vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Educação (Anped), Leda Scheibe, diz que a questão salarial é importante, mas não é o único fator de influência. “De forma nenhuma se pode chegar à conclusão de que quem recebe o melhor salário vai ser melhor”, ressalta. As diferenças socioeconômicas, mais sensíveis em alguns Estados, também impactam na qualidade de ensino. “É preciso ter condições de trabalho. Nenhum professor pode fazer milagre na escola, por melhor que ele seja. E o salário sozinho não resolve o problema”, diz.

A disparidade entre os patamares de renda dos docentes e o desempenho dos alunos não surpreende o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). O parlamentar admite que o salário dos profissionais é um elemento importante para a educação, mas afirma que não é suficiente para garantir qualidade ao ensino público. Isso porque um vencimento alto pode ser pago a um professor mal preparado ou que atue em uma escola sem a estrutura ideal. “Ter um professor com bom salário e mal preparado não melhora a educação. Professor com bom salário e preparado, mas que não dá aula, também não melhora. E se ganhar bem, é preparado, dá aula, mas não tem instalações adequadas, também não ajuda”, analisa.

Anos iniciais evoluem, ensino médio regride
Apesar de todos os Estados terem registrado evolução no Ideb para anos iniciais do ensino fundamental da rede pública – apenas o Distrito Federal manteve o índice de 5,4 registrado na última edição da pesquisa -, nove Estados regrediram no índice do ensino médio (sete deles ficando abaixo da projeção para 2011). Na categoria dos anos finais do ensino fundamental, seis Estados não cumpriram a meta, e quatro deles apresentaram queda em relação ao número obtido em 2009. Para a vice-presidente da Anped, o ensino médio demanda cuidado especial e um debate profundo sobre seu rumo. “A maioria dos estudantes não vê muito sentido no ensino médio. Eles precisam trabalhar, ajudar no sustento da família, e desistência é muito grande”, analisa.

Piauí: mau desempenho no Ideb e mais professores com EF incompleto
O Estado do Piauí obteve um dos piores números no Ideb de alunos do ensino médio na rede pública: 2,9. Os anos iniciais e finais do ensino fundamental atingiram 4,1 e 3,6, respectivamente. Segundo dados do Inep, o Piauí registra um dos índices mais alarmantes em relação à escolaridade de seus docentes da rede pública: dos 48.429 professores, 1.789 têm ensino fundamental incompleto. É o Estado com mais professores nesta condição.

Para a vice-presidente da Anped, a preparação dos professores está muito defasada. “Os jovens, em sua maioria, não querem ser professores. Exceções sempre há, mas só quer ser professor quem acaba não tendo outras oportunidades”, analisa Leda. A professora ainda aponta a grande oferta de cursos de educação a distância como um exemplo de que mesmo quem busca o ensino superior não tem garantia de uma formação adequada. “É preciso melhorar os cursos que formam os professores”, sentencia.

“Educação é cara mesmo”, diz presidente da CNTE
Crítico do sistema de avaliação desenvolvido pelo governo federal, o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Franklin de Leão, defende que o Ideb não serve como indicador da qualidade da educação brasileira. Isso, segundo ele, porque mede apenas o desempenho dos alunos em uma prova, enquanto um indicador eficaz deveria levar em conta as condições ofertadas para os alunos e para os professores, no que se refere à formação e à estrutura, elementos fundamentais para a qualidade da educação. Até por isso, Leão é radicalmente contra a exposição dos valores obtidos nas portas da escola. “Expor o número atinge em cheio alunos na sua autoestima, porque serão tachados de incompetentes. Isso não é transparência, porque não adianta dar a oportunidade para que os pais cobrem da escola se a maior parte dos problemas de educação são estruturais e não podem ser resolvidos dentro da escola”, salienta.

Questionado sobre a relação entre salários dos professores e o Ideb, Leão também reforça que a questão salarial é apenas uma entre uma série que precisa ser respeitada para se dar condições de trabalho aos docentes. Por isso, entende que os problemas devam ser atacados em conjunto. Além do incentivo para a formação, o professor precisa, segundo Leão, receber uma remuneração adequada e ter condições de trabalho. “Hoje travamos uma luta terrível no Brasil inteiro para que o piso salarial seja cumprido. Educação é cara mesmo, precisa ter investimento”, reforça.

Em relação aos gastos em educação, o senador Cristovam Buarque acrescenta que a mera fixação de metas para investimento não é o bastante para promover a melhoria do ensino. “É uma besteira dizer que é preciso colocar 10% do PIB em educação. Fazer isso, no sistema atual, é jogar dinheiro fora. As nossas escolas não são capazes de absorver esse investimento. É como dar feijoada para um faquir recém saído do jejum. É preciso ver quanto custa uma escola de qualidade e, a partir disso, definir o quanto gastar”, compara. Veja nas tabelas abaixo o índice completo por Estado.

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra
Cartola – Agência de Conteúdo – Especial para o Terra