Para especialistas, reduzir disciplinas do ensino médio é “ridículo”

Ministro da educação diz que currículo está sobrecarregado. Especialistas ressaltam que diminuir disciplinas agrava o problema

Lecticia Maggi

Alunos de escola particular de São Paulo: Brasil tem a maior taxa de abandono do ensino médio entre todos os países do MercosulNove estados tiveram queda no Ideb referente ao ensino médio (Mário Rodrigues/DEDOC)

Os números do Ideb 2011, divulgados ontem pelo Ministério da Educação, trouxeram novas cores a uma antiga crise, instalada há décadas no ensino médio brasileiro. Na última terça-feira, porém, contrariado por ter de anunciar uma notícia negativa, o ministro Aloizio Mercadante tirou uma solução mágica da manga: reduzir o número de disciplinas obrigatórias – atualmente elas são 13 – na rede pública. “O aluno precisa focar nas disciplinas tradicionais, como matemática, português e ciências”, explicou o ministro. Em outras palavras, já que os alunos não aprendem, o ministro Mercadante quer parar de ensinar. Para especialistas, a medida seria desastrosa. “Se o objetivo é melhorar somente o Ideb, excluamos todas as disciplinas e deixemos apenas português e matemática, as únicas avaliadas pelo índice”, ironiza Romualdo Portela de Oliveira, doutor em educação e professor da Universidade de São Paulo.(USP). “Do ponto de vista educacional, porém, isso é ridículo.”

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Segundo Portela, grande parte das deficiências apresentadas no ensino médio se deve ao desinteresse dos alunos pelo que é lecionado. Consequências, diz, de um “currículo que não resolve as angústias da vida real” do estudante. “Podemos ‘enchê-lo’ de português e de matemática, mas de nada adiantará se o currículo não for significativo para o aluno”, defende.

A pesquisadora Regina Lúcia Luz de Brito, professora-doutora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) defende um redesenho curricular, mas sem a simplificação proposta por Mercadante. “Todas as disciplinas são fundamentais na formação do jovem”, afirma. “A educação tem que ser vista como um todo, não algo compartimentado para melhorar os índices de uma prova.”

Por conta da complexidade do currículo escolar, é no ensino médio também que, segundo os educadores, os gargalos da educação básica ficam mais evidentes. Em 2011, por exemplo, o Brasil registrou taxa de 13,1% de reprovação nesta fase(entre escolas públicas e privadas), a maior desde que os números começaram a ser divulgados – em 1999.

O mau resultado no Ideb reforça isso: nove estados tiveram quedas na nota na comparação com 2009 e outros sete se mantiveram estagnados. Até mesmo na região Sul, que sempre se destaca pelos bons índices, houve retrocesso na nota, de 4,1 para 4.

A proposta estapafúrdia de Mercadante é só outra tentativa atabalhoada do MEC de alavancar as notas. A anterior, adotada após o Ideb de 2009, apontava na direção totalmente oposta. À época, o MEC criou o Programa Ensino Médio Inovador (Proemi), que estimulava as escolas a oferecer mais disciplinas, de preferência alternativas nos campos de trabalho, ciência, cultura e tecnologia. O programa ampliava a carga horária. “A ideia era testar um sistema mais atrativo”, lembra Portela. “Na prática, acabou ampliando o que não funciona.” Como provam os números do Ideb 2011.

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