Gestores devem usar Ideb para criar ações efetivas, afirmam pesquisadores

Gestores devem usar Ideb para criar ações efetivas, afirmam pesquisadoresPara especialistas em Educação, índice ainda não é utilizado como deveria

Mariana Mandelli

Apesar do vasto raio-X que os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Brasileira (Ideb) oferecem a escolas, municípios e Estados sobre o desempenho dos alunos e o perfil socioeconômico das redes, o uso dessas informações para a construção de políticas públicas ainda é uma raridade no País. Para especialistas, os números divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) só terão sentido quando forem compreendidos por professores, diretores e secretários.

“O desafio que está posto hoje é como fazer esses dados chegarem aos docentes. Ou seja: como podemos instrumentalizá-los. Os gestores precisam superar essa fase de deslumbramento dos números, de rankings e comparações, para usar esses dados de forma realmente efetiva”, destaca o professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Ocimar Alavarse.

Além da dificuldade na compreensão do Ideb, existe outro obstáculo a ser superado: a simples falta de conhecimento do índice pelos profissionais da Educação. Uma pesquisa da Fundação Victor Civita em parceria com a Fundação Carlos Chagas, divulgada no ano passado, mostrou que 47% dos coordenadores pedagógicos das escolas não têm clareza sobre o significado do índice.

Essa é uma das razões que reforçam, segundo os especialistas, a necessidade de transmitir os dados do Ideb de forma didática, transformando-os em informações acessíveis para professores, diretores e gestores. “Números não falam. Precisam ser explicados. Dependem de associações de causa e efeito que permitam sua interpretação. O que estaria causando a melhoria? Quais as evidências que permitem associar os resultados com ações que os explicam?”, questiona Marcio da Costa, pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Uma boa forma de entrar nesse campo é investigar as diferenças na evolução dos indicadores entre os aglomerados estatísticos. Quais estados e municípios se saem bem acima ou abaixo dos demais? Quais melhoram ou pioram? Por exemplo, indicadores de qualidade de vida, em geral, melhoraram no Brasil ao longo da última década. Será que é isso que explica a melhoria geral? Em que medida políticas especificamente educacionais podem ser associadas ao indicadores educacionais? Quais políticas, de gestão, curriculares, de incentivo, por exemplo, podem estar associadas a diferentes evoluções nos resultados? Todas essas são perguntas que podem começar a ser trabalhadas com a divulgação dos dados completos”, sugere Costa.

Romualdo Portela, docente da Faculdade de Educação da USP, concorda. “O dado mais relevante do Ideb é o desempenho na Prova Brasil. Do jeito que é divulgado hoje, fica incompreensível para a escola conseguir ter uma reação eficiente para desenvolver ações que supram as deficiências observadas”, explica.

A tarefa de transmitir o Ideb às redes, no entanto, não é tão simples quanto parece. Alavarse lembra que os resultados de 2011, por exemplo, refletem o processo de aprendizado de um ou dois anos anteriores. Ou seja: muitos alunos já passaram de ciclo ou de etapa da Educação Básica. “Quando os dados chegam, os estudantes não estão mais ali, o que complica a ação das escolas e secretarias”, ressalta. “Além disso, até os microdados chegarem às escolas, o ano letivo pode já ter acabado.”

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