Propostas para a saúde focam a assistência médica

Para o médico Sílvio Paulo, o próximo gestor deve organizar a saúde primária e garantir o funcionamento dos equipamentos existentes FOTO: THIAGO GASPAR

Principal tema da campanha eleitoral deste ano, a saúde pública tem sido tratada, até agora, como prioridade pelas candidaturas à Prefeitura de Fortaleza. E, consequentemente, tem sido o setor que gera mais tem gerado críticas à gestão da prefeita Luizianne Lins (PT). Não por acaso, dois candidatos a prefeito e três a vice são médicos. Para especialistas na área, porém, as propostas deveriam estar focadas mais na prevenção e educação do que na assistência médica.

Os candidatos Heitor Férrer (PDT), Roberto Cláudio (PSB), Moroni Torgan (DEM), Marcos Cals (PSDB) e Inácio Arruda (PC do B) têm afirmado repetidas vezes que a saúde é a área que necessita de mudanças mais urgentes na Capital. Em suas propostas, os candidatos falam, por exemplo, na construção de novos equipamentos, como hospitais e centros de especialidades médicas, no funcionamento de postos de saúde 24 horas, e na criação de programas de saúde.

Para o médico Sílvio Paulo Furtado, professor do departamento de medicina clínica da Universidade Federal do Ceará e ex-diretor dos hospitais César Cals, IJF, HGF e do Hospital Universitário Walter Cantídio, o próximo gestor da Capital deveria, primeiramente, se empenhar em organizar a saúde primária e se comprometer com o bom funcionamento dos equipamentos já existentes para, posteriormente, investir em novas unidades de saúde.

“Não adianta falar em construção de hospitais, se os postos (de saúde) não funcionam. Claramente, se eles conseguissem fazer funcionar uma assistência primária de qualidade, já reduziria, e muito, o problema da assistência terciária”, diz Sílvio Paulo. A médica Raquel Maria Rigotto, professora do departamento de saúde comunitária da UFC, também acredita que o problema da saúde pública em Fortaleza não se resolverá com a construção de novos hospitais. “O problema não se resolve com mais assistência na saúde. Não se trata de mais hospitais. O importante é a atenção primária”.

Vigilância

A professora critica ainda o modelo adotado na atual gestão por privilegiar a assistência curativa individual em detrimento da vigilância, educação e promoção da saúde. “Não há como fazer saúde só com assistência, tratando doença. Nós temos que promover a saúde com vigilância”. Já Sílvio Paulo reclama do modelo de gestão dos equipamentos de saúde em Fortaleza, e dos critérios de escolha de seus diretores. “A política de gestão de pessoas do governo não responde às necessidades. Não se pode lotear os equipamentos com políticos para gerenciá-los”, ele diz.

Tanto Sílvio Paulo como Raquel Rigotto destacam o Programa de Saúde da Família como solução viável que poderia minimizar os problemas na assistência médica. Outro problema enfrentado na Capital, segundo Sílvio Paulo, é a situação das emergências e urgências. Porém, ele acredita que para resolvê-lo seria preciso fazer investimentos também na área de educação, já que grande parte desses atendimentos são direcionados a vítimas de acidentes de trânsito.

Para Raquel Rigotto, apesar de reconhecerem os problemas no setor, os candidatos têm feito, até agora, discursos superficiais sobre a saúde pública. Ela destaca como positiva as propostas do candidato do Psol, Renato Roseno, por dar ênfase à políticas educacionais voltadas, principalmente, para crianças, adolescentes e jovens, público que, hoje, mais vagas ocupa nos postos de saúde e nas emergências.

Sobre a proposta de construir um segundo IJF, Sílvio Paulo diz que, de fato, seria uma maneira de reduzir o grande número de pacientes do hospital, mas que não se trata de uma necessidade urgente. “Cabe sim, a construção de um outro hospital de emergência em Fortaleza. Mas não é a questão prioritária e primordial. O primordial é organizar a rede que já existe de Frotinhas e Gonzaguinhas”, cuja situação ele considera caótica.

Diário do Nordeste