Cuidado com a pílula da boa nota

Na ânsia de estudar mais para passar em um vestibular ou concurso concorridos, estudantes estão indo além das tradicionais substâncias estimulantes. O metilfenidato, conhecido como “pílula da boa nota”, passou a ser a opção. A substância, no entanto, é para ser usada no tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Em pessoas que não têm o transtorno, há risco de comprometer a saúde

A rotina é corrida. Os conteúdos são muitos e o tempo para apreendê-los é reduzido. A pressão para se dar bem num vestibular ou num concurso, extremamente concorridos, é cotidiana. Com o tempo, o cansaço toma conta do corpo, a concentração diminui e a vontade de dormir e descansar aumentam. Na reta final para um concurso ou no segundo semestre de cada ano, quando as provas de vestibular se aproximam, os estudantes tentam driblar a fadiga e prosseguir com os estudos em dias.

Para alguns, não adianta só manter a calma, organizar horários e ter disciplina. É preciso algo mais para “turbinar” o cérebro e deixar a mente e o corpo mais dispostos e alertas. Vale tomar muito café, misturar com refrigerante à base de cola, comer chocolate, ingerir chá-mate e exagerar no pó de guaraná. No entanto, alguns não satisfeitos com os efeitos das tradicionais substâncias estimulantes (que, em excesso, também podem prejudicar a saúde), passaram a fazer uso do metilfenidato.

A substância, usada no tratamento de pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), ficou conhecida como a “pílula da boa nota” ou a “pílula da inteligência”. Isso porque o metilfenidato é um psicoestimulante, que age no cérebro aumentando a produção de neurotransmissores (levam informações de um neurônio a outro), como a dopamina. Esse neurotransmissor é responsável por manter a atenção e a concentração, conforme o psiquiatra Alexandre de Aquino.

Aquino, que também é coordenador do Núcleo de Atenção à Infância e Adolescência do Hospital de Saúde Mental de Messejana (Naia), alerta que, para aqueles com TDAH, o uso é muito benéfico, porque há desequilíbrio na produção de neurotransmissores. No entanto, quem não tem o transtorno e passa a utilizar para estudar melhor, pode colocar a saúde em risco, pois o metilfenidato, além de agir no cérebro, interfere no sistema cardiovascular. “Os psicoestimulantes não aumentam o QI de ninguém. E não deixam ninguém mais inteligente”, alerta.

Além disso, segundo o médico, no Brasil, a única indicação do metilfenidato, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é para o tratamento de TDAH. “E tem que ser prescrito por um médico, após o diagnóstico do transtorno”. Mas, na hora de querer ter bom desempenho, muitos estudantes não ponderam o uso. E alguns profissionais acabam contribuindo para o uso indiscriminado. Foi o caso do jovem de 29 anos, que conseguiu usar o medicamento durante três meses.

O objetivo era só passar num concurso. “Fiz uma pesquisa para ver o que poderia me deixar mais alerta. Fui ao neurologista e pedi que ele me passasse”. O médico receitou o medicamento, mesmo sem o diagnóstico de TDAH. “Eu sentia que me dava um gás para estudar. Tomei como um anabolizante cerebral. Me dava mais disposição, mais determinação”, conta. Hoje, conseguiu passar e suspendeu o medicamento. Mas não descarta usá-lo outras vezes. Ele relata que sentiu poucos efeitos adversos.

Efeitos

“Para mim, o remédio só aumentava a ansiedade, porque sou muito ansioso. Inventei de tomar numa prova e fiquei nervoso, estressado. Foi muito pior”. Mas os efeitos colaterais podem ir além da ansiedade. Os psicoestimulantes aumentam os batimentos cardíacos, elevam a pressão arterial e podem provocar mudanças de comportamento. “Quem já tem predisposição pode chegar até a ter um surto psicótico”, alerta a professora do curso de Farmácia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mirian Parente Monteiro, coordenadora do Centro de Informações sobre Medicamentos (CIM).

O POVO não divulga o nome do jovem de 29 anos a pedido do entrevistado.

Saiba mais

Sobre o TDAH


O TDAH é um transtorno, já reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que atinge principalmente crianças e adolescentes. Também pode ocorrer em adultos.

Os sintomas estão divididos em duas vertentes: a hiperatividade/impulsividade ou a desatenção. E existem aqueles que têm TDAH do “tipo misto”.


Quem sofre com o transtorno tem dificuldade de manter o foco da atenção, se concentrar e realizar simples tarefas cotidianas.

 

Pessoas com TDAH, segundo os especialistas, têm alguma disfunção na região do lobo pré-frontal do cérebro (parte da frente do órgão).

Há um desequilíbrio de noradrenalina e dopamina, substâncias que funcionam como neurotransmissores, levando informações de um neurônio ao outro.

O lobo pré-frontal é responsável por analisar as consequências de ações futuras para efetuar o planejamento motor de acordo com as conclusões.

Se não funciona direito, a pessoa se torna desastrada, impulsiva e desorganizada, por exemplo.

Serviço

Centro de Informações sobre Medicamentos (CIM) da UFC

Telefone: (85) 3366 8293

E-mail: cimufc@ufc.br

Gabriela Meneses
O Povo