“NÃO PODEMOS FICAR PARADOS”

Para a diretora-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, a demora na votação do PNE vai comprometer a formulação de propostas educacionais em todos os estados e municípios, mas não deve ser motivo para a sociedade cruzar os braços

Fonte: Tribuna do Sudoeste

Depois de permanecer um ano e meio em tramitação na Câmara Federal, finalmente o Plano Nacional de Educação (PNE) foi aprovado e encaminhado ao Senado. A demora na votação do documento, na opinião da diretora-executiva do Movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz, vai comprometer a formulação de propostas educacionais em todos os estados e municípios brasileiros.

Ainda assim, segundo ela, isso não pode ser motivo para a sociedade cruzar os braços. Aos 37 anos, sendo sete deles dedicado ao Todos pela Educação, Priscila se tornou uma das figuras mais representativas do setor educacional brasileiro. 

Por conta dessa atuação, ela conquistou o prêmio Jovens Lideranças 2012, na categoria Educação. A iniciativa do jornal O Estado de São Paulo, em parceria com a XYZLive, empresa de entretenimento, busca estimular e reconhecer projetos e ações que favoreçam o desenvolvimento do país nas mais diferentes áreas.

Além do PNE, nesta entrevista exclusiva ao Escola, a diretora-executiva do Todos Pela Educação fala comenta também sobre a reforma do Ensino Médio, sobre o Programa Um Computador por Aluno e ainda sobre as últimas pesquisas na área de educação.

A senhora recebeu recentemente o prêmio Jovens Lideranças 2012. Como foi receber essa honraria?
É um prêmio para lideranças de 35 a 42 anos que estão fazendo, nas áreas estratégicas do país, uma diferença e um trabalho inovador. Foi bacana porque basicamente foi o reconhecimento ao trabalho que venho desenvolvendo frente ao Movimento Todos Pela Educação.

Uma das metas do Movimento é toda criança e jovem na escola. Mas dados recentes do Inep revelam uma redução de mais de 577 mil matrículas na Educação Básica, entre 2011 e 2012. Que avaliação a senhora faz desses números?
Em grande medida essa redução se deu por causa da transição demográfica que o Brasil está passando agora. Nessa transição há famílias com menos filhos. Então estão nascendo menos crianças e, principalmente na Educação Infantil, nós temos uma pressão menor por matrícula. Mas também, nesse nível de ensino, o déficit é muito grande.

Temos 80% das crianças de 4 a 5 anos na escola, mas ainda faltam inserir 20% delas. Ainda tem uma lacuna que o governo ainda não conseguiu preencher. Então existe sim, uma diminuição, mas o país tem que, em todas as redes, universalizar a matrícula de 4 a 5 anos até 2016, pois é o que determina a lei.

Um outro problema grave na educação brasileira é a correção de fluxo. Segundo o IBGE, mais de um terço dos alunos que deveriam estar no Ensino Médio ainda estão no Fundamental. O?que é preciso fazer para mudar esse quadro tão negativo?
Acredito que a principal saída para corrigir as defasagens de séries, para corrigir o fluxo escolar e ter todas as crianças e jovens estudando na idade certa, é universalizarmos a aprendizagem desses alunos que estão na escola hoje. É mais do que universalizar o acesso, porque, em grande medida, a situação é provocada pela repetência, evasão e abandono. Repetência e abandono são os principais fatores e eles são impulsionados pela má qualidade do ensino na escola ou pela não aprendizagem desses alunos.

O mais recente relatório divulgado pelo Todos Pela Educação apontou que 3,8 milhões de jovens estão fora da escola. Que fator é capaz de explicar esse índice tão grande?
Desses 3,8 milhões de jovens fora da escola nem todos são por conta da evasão. As crianças da Educação Infantil nem chegaram a entrar na escola. Então uma parte é ainda pelo não acesso e a outra pela não universalização das matrículas das crianças pequenas. É no Ensino Médio que nós encontramos mais evasão, provocada pelo desinteresse dos alunos pela escola.

A Câmara de Deputados instalou uma comissão especial para discutir a reformulação do Ensino Médio. Qual a expectativa do Todos pela Educação com essa reforma?
O Ensino Médio é, em parte, aquele que mais carece de um projeto melhor definido. É uma etapa que tem pouca orientação nas escolas, muitos alunos e muitas dificuldades… Além disso, tem o fato de que esse nível de ensino acaba recebendo o acúmulo de defasagem que as crianças vão tendo ao longo das séries anteriores. E quando elas chegam no Ensino Médio já estão com um histórico de repetência e com nível de aprendizagem deficiente. Os conteúdos oferecidos no Ensino Médio são muito mais complexos do que o do Fundamental e, como esses jovens já ingressam aí com lacunas de aprendizagem, não conseguem avançar e a escola fica sem atrativos.

O problema maior é o excesso de conteúdo ou a forma de ofertá-lo?
O Ensino Médio ainda é enciclopédico, com muito conteúdo, mas pouco aprofundamento em cada um deles. E ainda existe a falta de perspectiva desses jovens porque muitos deles tem como duas únicas alternativas a faculdade ou ir direto para o mercado de trabalho, enquanto deveria haver outras possibilidades intermediárias como o ensino técnico profissionalizante e outras estratégias que deveriam estar mais disseminadas no país. O que me preocupa é que é muito comum no Brasil as leis não pegarem e pode ser uma discussão até muito boa no começo, mas no final a lei não é cumprida. Não basta ter uma ótima lei, ela tem que ser cumprida no país.

Outra pesquisa do Todos pela Educação mostra que quase 90% dos professores do 5º ano do Ensino Fundamental afirmam que a principal causa dos problemas de aprendizagem dos alunos é a falta de assistência e acompanhamento da família… Como mudar isso?
É possível destacar dois pontos na resposta desses professores. Primeiro é um ponto positivo porque mostra que os professores reconhecem a importância da família no processo de aprendizagem dos alunos. Um outro ponto que vale a pena destacar é que existe ainda, de fato, uma dificuldade grande nas escolas de entender o papel das famílias, em acolhê-las e orientá-las. Claro que a educação para acontecer, segundo a Constituição Federal, é dever do Estado e também das famílias. E os professores entendem isso.

O que acontece é que se nós não orientarmos as famílias, elas também ficam meio perdidas. Nós temos que usar esses dados para alertar e conscientizar as escolas sobre como elas podem trabalhar para que essa família se sinta acolhida e considerada; para que a mãe, a tia e a avó saibam o que fazer em casa para ajudar no trabalho do professor.

Que avaliação a senhora faz do Programa Um Computador por Aluno num cenário onde o governo federal já está investindo recursos na segunda etapa sem ao menos saber os resultados da primeira?
O uso da tecnologia, tanto na sala de aula quanto em casa, com conteúdos escolares é uma tendência inevitável. Isso vai acontecer com ou sem a participação dos governos federal, estaduais ou municipais. Acredito que o grande papel da gestão pública e de todo mundo que se interessa pela educação é se aprofundar nesse tema para que não haja investimentos em experiências que não dão em nada. É muito comum essas experiências estarem mais focadas na tecnologia e pouco na aprendizagem.

E já que isso é uma tendência irreversível e que só vai crescer, agora temos muito mais uma lição de casa que tem que ser feita por todos nós, enquanto uma liderança, de orientar isso nas escolas principalmente para os professores. Isso para que eles não se sintam descartados ou vulneráveis em relação a uma tecnologia que eles ainda não dominam, porque os alunos, de fato, dominam muito mais do que eles em geral.

Mas qual deve ser, de fato, o papel do governo na inserção dessas tecnologias na escola?
Creio que ao governo cabe realizar ações que possam orientar a atuação do professor. Eu não sou contrária a uma disseminação tecnológica com foco no professor. Eu acho que o primeiro passo para quebrar a resistência dos professores em relação a tecnologia é dar esse acesso a eles. O professor que nunca pegou num tablet ou smartphone inevitavelmente vai ter mais resistência. Os programas que dão acesso a tecnologia aos professores são bem vindas e importantes, desde que haja uma intencionalidade de trabalhar o foco pedagógico e desde que essa iniciativa não fique pautada somente na tecnologia, que tenha material incluso, formação do professores etc.

A demora na aprovação do PNE (Plano Nacional de Educação) pelos deputados federais foi muito criticada. O documento foi aprovado em junho, mas ainda vai para análise no Senado. Quais os principais prejuízos disso para a população brasileira?
Tem um que eu acho que é o principal. É a falta de norte principalmente para os municípios e estados formularem seus sistemas estaduais e municipais, pois existem municípios e estados aguardando o plano ser aprovado para formular o seu. E é necessário, mas isso não pode ser visto como referência para estados e municípios começarem a pensar nos seus próprios planos. Eu acho que o Brasil não pode ficar parado porque o Congresso Nacional está parado. Não é uma instituição que vai fazer com que o Brasil inteiro fique parado por conta da educação pública. É uma parcela de todo o processo, mas as políticas estaduais e municipais e investimentos das empresas privadas continuam.