O papel das escolas na hora de impor limites

Há, na sociedade contemporânea, uma grande preocupação com as questões ligadas à violência, exclusão, punição, arbítrio e cumprimento de leis e regras. Se a escola é um reflexo da sociedade, como afirmam alguns educadores, dentro dela esses temas também mobilizam quem atua em sala de aula. Muitos falam em crise de autoridade no ambiente escolar, porém até que ponto as instituições de ensino, que, junto com as famílias, são as responsáveis pela formação dos jovens, são capazes de lidar com questões que vão além de seus muros?

A colocação de limites faz parte do processo educativo e a ausência dessa prática pode gerar uma crise de valores. Os pais e os professores são os responsáveis por transmitir os princípios éticos e morais criados e impostos pela a sociedade para o convívio em grupo. Contudo, ao longo dos últimos anos, percebe-se o surgimento de um novo modelo econômico, cultural e social, com o acesso ilimitado a informações, crianças e adolescentes sendo vistos como consumidores cada vez mais cedo, o surgimento de novas referências e, muitas vezes, pais ausentes em razão de seus compromissos profissionais.

Segundo Carlos Alberto de Mattos Ferreira, psicólogo e mestre em educação, essas transformações fizeram com que os jovens tivessem direitos próprios, acima da família e da escola, e subvertessem os
limites colocados por ambos. “Vivemos em uma sociedade extremamente competitiva e individualista, com valores mais solidários e respeitosos sendo descartados por um perfil social. Então, a escola, como um ator dentro da sociedade, também encontra suas dificuldades para estabelecer limites nisso que se coloca como perturbador pelo marketing, pela ideia de consumo. A educação saiu do âmbito escolar e entrou no campo da publicidade. A escola precisa sair do lugar de refém para retomar o de
autoridade”, analisou.

Professor e doutor em educação, Alvaro Chrispino, que é especialista em gestão de conflitos escolares, com livros e artigos sobre o assunto publicados, pensa parecido. Segundo o educador, colocar limites é fundamental para a formação do cidadão. No entanto, é necessário ter cuidado para que não seja uma imposição de poder sem explicação, de forma autoritária. Por isso, de acordo com ele, a construção participativa das regras é um fator importante para que sejam respeitadas. “As pessoas pensam diferente, têm histórias e percepções do que é certo ou errado completamente distintas. Depois, acabam punidas por algo que acreditam ser correto e ninguém disse que, naquele contexto, não é. As crianças e os jovens são severos na escolha de seus próprios limites quando têm espaço e são instruídos para isso”, disse o especialista.


É preciso criar formas de aproximar família e escolas

Todo jovem precisa de uma referência para o seu desenvolvimento como ser humano. Na opinião de Carlos Alberto Ferreira, tal papel, na teoria, deveria ser representado pela figura dos pais e dos professores. Contudo, não é o que acontece na prática. De acordo com ele, muitos alunos vêm de famílias cujas relações entre pais e filhos é frágil e, assim, a tendência é que o jovem repita o mesmo comportamento dentro de sala de aula.

“A família acaba esperando da escola um tipo de educação que, na verdade, deveria ser dada em casa. A escola não tem condições de oferecer isso para tantos jovens ao mesmo tempo. Precisamos ajudar a discutir esse espaço da infância, adolescência, família, escola e sociedade”, afirmou.

Para Alvaro Chrispino, a grande dificuldade das instituições de ensino na hora de impor limites, que pode resultar em uma série de conflitos como a depredação do patrimônio e o ataque ao outro, por exemplo, se dá pela massificação da escolarização, que levou para os mesmos espaços alunos com perfis distintos, mantendo as antigas rotinas de atendimento a grupos anteriormente homogêneos.

“Um aluno pode ter sido formado com uma visão preconceituosa de raça, credo ou classe social, porque não teve a oportunidade de conhecer o diferente. E aí, colocamos todos no mesmo barco e esperamos que ele aja conforme estabelecemos. Mas ele reage conforme sua história. Será que nós estamos atentos ou só estamos preocupados com a Física, Matemática e Português?”, questionou, ressaltando que o aprendizado se dá apenas quando há um clima favorável ao ensino.

O afastamento entre família e escola também incomoda Chrispino. De acordo com ele, o grande ponto de conexão ainda é o boletim. Entretanto, os pais não participam do conhecimento das regras daquela instituição e de sua rotina. Só aparecem na escola, na maioria dos casos, quando há problemas de conflito envolvendo seus filhos ou quando as notas estão ruins. “Temos que aprender novos caminhos para sensibilizar as famílias. É preciso estreitar essa relação, pois todos querem a mesma coisa”, completou.

Agressividade e conflitos nas escolas foram tema de debate

A ocorrência cada vez mais frequente de casos de violência em instituições de ensino não está relacionada somente a aspectos do ambiente escolar. Segundo o professor Carlos Alberto Ferreira, as transformações sociais ocorridas nos últimos anos produziram novas formas de expressão do desrespeito em com o próximo.

Foi exatamente este quadro que ele abordou na palestra “Agressividade: bullying, resiliência, limites, violência e crise de autoridade”, ministrada no Congresso Rio de Educação, no último dia 14. No evento, ele procurou mostrar as diversas manifestações do tipo, no dia a dia das crianças e adolescentes nas escolas e em família. “O tema buscou refletir o momento que vivemos, a solidão de cada professor dentro do ambiente escolar e que cada escola vive, já que estão voltadas apenas para dentro de si. Hoje há uma necessidade muito grande de educadores e colégios discutirem em conjunto o momento que vivemos para, a partir daí, propormos uma atitude mais coletiva”, disse.

O Congresso Rio de Educação, realizado pelo Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro (Sinepe-Rio), reuniu alguns dos principais especialistas em educação do país para debater, entre outros assuntos, temas ligados a conflitos escolares, agressividade e crise de autoridade nas escolas.

Alvaro Chrispino ministrou a palestra “A mediação do conflito escolar”. Em sua fala, ele propôs a cultura da mediação para o encaminhamento de soluções de conflitos entre alunos, com professores e, até mesmo, com gestores. “A escola não é culpada pela violência escolar, da qual também é vítima, mas é responsável pela reflexão que proporciona ou não sobre o problema”, ressaltou.

Opinião: as escolas vivem uma crise de autoridade?

“Não é uma questão apenas do espaço da escola, mas sim um problema social. Em todos os espaços, observamos que as leis não são prioridades. Mas a rotina escolar exige um cumprimento mínimo de regras. Temos um trabalho voltado para o cumprimento de pequenas regras, como horário, por exemplo, sempre tentando manter uma relação de vínculo e afetividade. Colocamos limites, mas sem agressividade. Em alguns momentos, somos duros, mas nunca insensíveis. Queremos que levem esses conceitos em sua vida diária e que sejam refletidos na família e com os amigos.”
Kátia Regina Garcia Nogueira, diretora educacional do Colégio Nossa Senhora da Misericórdia do Rio de Janeiro

“Não acho que seja crise de autoridade das escolas. De maneira geral, as pessoas não respeitam as leis e isso acaba refletindo na escola. Os professores têm um papel que vai além da transmissão de conteúdos. Também devem discutir ações políticas e sociais para mudar esse papel desempenhado pela escola na sociedade. Deve ter noção que não é um objeto, mas um sujeito da educação. O professor pode passar isso para o aluno, mostrar que ele tem um papel importante e pode modificar o mundo que vive. A punição é importante em determinados momentos, mas o diálogo é sempre o melhor caminho.”
Maria Clara da Silveira Pereira da Silva, coordenadora do MV1 Total – John Dewey

“Vivemos uma crise de autoridade, sim. Os pais, muitas vezes, por não terem tempo suficiente com a criança em casa, não conseguem estabelecer limites. A escola pode promover um programa de formação de pais. Não é propor um manual, mas apenas orientá-los. Quando falta esse diálogo em
casa, a postura do professor e da escola deve ser voltada para trabalhar o respeito e o ensino das virtudes. A punição, sozinha, não vai resolver. Vamos punir uma vez, na próxima o aluno já achará comum e teremos que impor uma mais severa. É necessário conscientizar o jovem.”
Márcia Miranday, coordenadora pedagógica do Colégio Nossa Senhora da Misericórdia, de Campinas, São Paulo

Por Thiago Lopes – thiago.souza@folhadirigida.com.br

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