Um professor de espírito superior

JOSÉ AMORIM SOBREIRA

Nascido na cidade do Crato, em 14 de maio de 1912, José Amorim Sobreira – o professor Amorim foi antes de tudo um cearense típico: lutador obstinado. Uma espécie de “David caipira” que na capital do seu Estado ousou desafiar a cultura do apadrinhamento.

Sob as auras do nome Crato, que é derivado do grego Kratos, que em português significa força, vigor, o professor Amorim chega à Fortaleza e, aqui, se distinguiu pela vivacidade da inteligência, pela cultura, pela personalidade e pela fidelidade aos postulados éticos, que sempre preservou com proficiência e simplicidade.

Um cidadão: defensor intransigente da liberdade e da Justiça, como demonstrou com seu ardor cívico nos embates políticos no período da democratização, após a “ditadura Vargas”, ou como advogado militante no foro de Fortaleza, por exemplo.

Um jurista, na verdadeira acepção da palavra: ia da definição do “Jus”, passando pelos princípios gerais do Direito, até às técnicas de interpretação da Lei.

Homem de estudo que enriqueceu a cultura cearense: Romanista; verbete do dicionário inglês “Ho is Ho”; fundador do Instituto de Cutura Clássica; sócio do Instituto Histórico do Ceará; membro da Societé dés Études Lastines (em Paris); orador; conferencista; escritor.

Um humanista de raras qualidades espirituais. Conhecedor profundo da língua e literatura latinas e da literatura em geral. Dono de uma respeitável biblioteca, com obras raras em grego e em latim (hoje depositadas num espaço, que leva seu nome, na Biblioteca Pública Menezes Pimentel).

Um homem culto, plenamente integrado à vida sociopolítica e religiosa da sua comunidade: líder católico leigo que, na década de 40, aceitou os desafios de resguardar a fé em Fortaleza, fosse na Presidência da União de Moços Católicos ou do Parido Democrata Cristão, fosse no enfrentamento na defesa da integridade moral e física de dom Antonio de Almeida Lustosa: o então Arcebispo Metropolitano; num tempo em que nossa cidade estava acossada por ideologias anticristãs.

No decurso dos quase 62 anos de vida, Amorim Sobreira foi sobretudo professor: mestre de elevado saber, cujo exemplo está presente nos lugares por onde passou – o Ginásio do Crato, onde se iniciou no magistério; colégios particulares e públicos de Fortaleza, como o Colégio Estadual Justiniano de Serpa, qual foi diretor e onde implantou novas estruturas pedagógicas, tanto quanto a métodos, como no que concerne ao conteúdo dos programas desenvolvidos; a Faculdade Católica de Filosofia (embrião da Uece), nos cursos de Língua e Literatura Latinas; e a Faculdade de Direito do Ceará, onde bacharelou-se em 1941 e ingressou, em 1951, por concurso memorável, em nível nacional, para reger a cadeira de Direito Romano (a propósito, a pessoa do professor Amorim na sala de aula, era a presença viva de jurisconsultos como Papiniano, Gaio ou Justiniano). Doutor em Direito. Professor que aplicou seus conhecimentos no melhoramento da sociedade.

Um homem de espírito superior, infenso ao cabotinismo, à mediocridade e à bajulação: gostava do silêncio, do isolamento e da reflexão.

Faleceu em 7 de março de 1974.

Por sua existência exemplar e afinidade com os fenômenos humanos, posso dizer: hoje, 2012, o professor Amorim Vivit, isto é, “continua vivendo”.

Amorim Sobreira

amorimsobreira@terra.com.br

O Povo