Tecnologia impõe novo perfil aos educadores

Por Alessandra Moura Bizoni – alessandra.bizoni@folhadirigida.com.br

Ao mesmo tempo em que a passagem do livro de papel para as plataformas digitais se apresenta como processo irreversível, tais transformações geram novas aptidões dos educadores e uma revisão do papel da escola, enquanto instituição, nestas primeiras décadas do século XXI. Foi esta a sinalização feita aos gestores de ensino durante o 8º Congresso Rio de Educação. Realizada na manhã do último dia 13, a discussão inicial do encontro, cujo tema central foi “Leitura, Informação, Memória”, se deu no painel “Do livro de papel ao livro digital: uma reflexão sobre o exercício da leitura”. 

Mediado por Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o debate teve a participação de Silvio Meira, Phd em Computação pela University of Kent, em Canterbury (Reino Unido),  presidente do conselho de administração do Porto Digital e membro do comitê assessor de tecnologias da informação do Ministério da Ciência e Tecnologia; e de Muniz Sodré, professor titular de universidades nacionais e estrangeiras, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional, tradutor, pesquisador do Cnpq e escritor com 36 livros publicados.

Formado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e em Informática pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Silvio Meira chamou a atenção dos educadores para aspectos comuns ao universo das tecnologias digitais que passam a nortear a relação das pessoas com a informação e o conhecimento, como a flexibilidade das plataformas, a multiplicidade de linguagens e o fluxo constante de informações.

Após ressaltar a pertinência do interesse por temáticas presentes em obras clássicas, como a Odisséia de Homero e a Divida Comédia de Dante Aleghieri, o especialista em Tecnologia da Informação — considerado pela Revista Exame com um dos 100 brasileiros mais influentes — observou que para além do suporte digital, os novos livros precisam agregar outras linguagens.

“O novo livro não pode ser a digitalização simples e pura do velho do livro. É preciso criar um novo livro. Devemos aproveitar as funcionalidades e criar novas possibilidades com as várias plataformas. Hoje em dia, os concorrentes com os livros não são as obras digitais, mas sim as redes sociais. Dados indicam que a população do mundo conectada à internet passa 23% do tempo no Facebook, a maior rede social do mundo”, informou.

Na avaliação de Silvio Meira, cabe a professores e gestores de ensino, questionarem as práticas e estruturas da escola e do processo de ensino e aprendizagem. “Mudanças nas plataformas digitais podem acarretar mudanças de aprendizado. Os questionamentos devem ser feitos desde como o livro até como a escola podem se transformar em novas  plataformas de compatibilidade”, acrescentou o engenheiro.

Por outro, Muniz Sodré, autor de obras nas áreas de comunicação e cultura brasileira, explicou que o livro não se restringe a um suporte, que pode ser tanto de papel, quanto digital, mas se trata de um instante de iluminação. Nesse mesmo contexto, também fez a distinção entre a obra e o texto. “Independentemente do suporte que tenha, o livro nos dá um instante iluminação. O importante é o sentido dado. Na década de 1970, Roland Barthes já fazia a distinção entre obra e texto. A obra sacraliza o livro. E o que vemos no computador não é mais obra, mas sim o texto”, argumentou o ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Diante do império das tecnologias da informação e da comunicação, assinalou Muniz Sodré, os educadores precisam assumir nova responsabilidade de desdobrar o sentido da avalanche de informações a que são submetidos os estudantes nos nossos dias. “O gênero textual é um modo particular de orientação de sentido. Se não há formação do sentido e consciência, ficamos somente no campo da informação e não chegamos à formação. Esta é uma distinção que o educador deve fazer hoje em dia”, esclareceu o escritor.

Por outro lado, assinalou Muniz Sodré, a oralidade ocupa novos espaços na contemporaneidade e precisa ser levada em consideração no processo de formação dos estudantes. “A escola precisa se abrir para outros conhecimentos. Hoje em dia, a leitura não é mais linear, não é sequencial. Também é preciso considerar o conhecimento dos analfabetos, numa educação mais abertas às pluralidades”, completou o docente.

Folha Dirigida